quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Determinismo biológico: há muito mais entre olhos azuis e castanhos do que codifica o seu vã DNA.

Essa semana estou cursando uma disciplina interessante aqui no Instituto de Biofísica da UFRJ. É sobre epigenética e está sendo ministrada pelo professor Marcelo Bento Soares, um dos poucos brasileiros a estar envolvido com o sequenciamento da primeira versão do genoma humano. 
Mas o que é epigenética e o que ela tem a ver com determinismo biológico? 

Já vou explicar.

Epigenética é um tópico fascinante! Tenho certeza que você já ouviu falar que o código genético, nosso DNA, determina nossas características e é uma junção de 50% de DNA do pai com 50% de DNA da mãe. Certo? Pois bem. Uma vez que tudo está escrito lá nos genes e somos uma união meio a meio entre o DNA de nosso pai e de nossa mãe, isso significa dizer que desde que nossa mãe escolheu mergir o DNA dela com o do nosso pai (fornicação!!!), ela determinou nossa constituição futura, certo?

Errado.

Muito se sabe hoje em dia sobre a relação entre estilo de vida, saúde e bem estar. Se o DNA fosse o único determinante de nossa saúde ou doença, pessoas que tivessem genes para o desenvolvimento de certos cânceres SEMPRE apresentariam esse quadro, e esse seu perfil molecular não poderia ser chamada de predisposição genética, mas sim de destino genético. Mas por que algumas pessoas desenvolvem os cânceres e outras não? Por que é uma predisposição e não uma determinante genética? Dentre as respostas, uma delas é a nossa herança epigenética.

Epigenética é toda uma série de padrões moleculares também herdáveis, mas que não representa mudanças diretas na sequência de letrinhas do DNA. Calma, vou explicar melhor. Imagine que o DNA seja uma longa fita métrica. Agora imagine alguns cliques fixados em diferente locais dessa fita métrica. Assim como quando prendem papéis, os cliques podem ser colocados e tirados da fita métrica sem danificá-la. Assim também é nossa herança epigenética. Biologicamente falando, as heranças epigenéticas mais conhecidas envolvem a metilação de algumas regiões do genoma, chamadas ilhas CpG, ou modificações de proteínas histonas. Essas modificações bioquímicas são reversíveis: os clipes podem ser colocados e tirados de acordo com nossos hábitos de vida. E pra finalizar, herdamos o posicionamento dos clipes no DNA presente nos espermatozóides e óvulos dos nossos pais.



Figura 1: A herança epigenética seria como clipes em uma fita métrica (que representaria o DNA). Ao longo do desenvolvimento e da vida esses clipes podem ser posicionados em diferentes lugares da fita, sem alterar o código expresso por ela. Os clipes presentes no DNA das células reprodutivas dos nossos pais biológicos serão herdados por nós. 


Esses clipes em locais diferentes, se presentes ou não, irão influenciar na expressão de diferentes genes e também na estabilidade do DNA. As modificações no padrão epigenético influenciam uma série de questões que vão desde obesidade até comportamento agressivo ou violento.

Um estudo fascinante publicado na Nature Neurosciences em 2004 mostrou a relação entre o comportamento afetivo de camundongos fêmea com os futuros comportamentos de seus filhotes.

Os filhotes que eram bem tratados na primeira semana de vida (licking and grooming behavior) apresentavam uma vida adulta muito menos estressada, e também tratavam bem seus futuros filhotes. Os filhotes que, por outro lado, não eram bem tratados na infância eram mais susceptíveis a estresses e não tratavam bem seus filhotes futuros. Tudo isso estava relacionado a metilação (padrão epigenético) de uma parte do genoma que promove a expressão de um gene ligado a estresse, chamado GR (receptor glucocorticóide).

Resumindo: o comportamento positivo da fêmea influenciava positivamente o futuro dos seus filhotes. Do mesmo modo que filhotes que não eram bem tratados na infância tinham futuros menos positivos; eram mais estressados e não tratavam bem seus filhotes. E tudo isso estava relacionado com o padrão epigenético das células tanta de fêmeas quanto de filhotes!

E agora preste atenção: mesmo camundongos adotados - que então não tinham a mesma herança genética da mãe - que eram expostos ao bom tratamento da mãe adotiva também eram menos estressados no futuro e apresentam comportamento carinhoso! E camundongos filhos da mãe carinhosa - que tinham, então, a mesma constituição genética da mãe carinhosa - que eram afastados dela e criados por mães não-carinhosas apresentavam comportamento não-carinho na vida adulta!

Ou seja? Não era o padrão genético que estava determinando se o camundonguinho seria carinhoso ou não no futuro, mas sim a sua experiência de vida que influenciava no seu padrão epigenético.

O que isso nos mostra claramente? Que nosso DNA pode nos impor alguns limites - se tivermos um gene para câncer teremos maior probabilidade de ter câncer - mas ele não é determinante. Nossas experiências de vida influenciam, pois são elas que vão estabelecer nosso padrão epigenético, que é plástico e mutável.

Os epigenomas e genomas apresentam padrões complexos, que mudam de perfil de acordo com diferentes células e diferentes tecidos. Por isso, você tem que ter paciência com os cientistas que fazem o melhor possível para entender esses padrões, e não pode ficar bravo quando eles falarem e disfalarem mil vezes que você deve comer ovo.

No entanto, estudos sérios, publicados nas melhores revistas científicas, tem mostrado uma relação extremamente forte entre atividade física, dietas vegetarianas, meditação e saúde mental e física.

Pra finalizar e salientar, a ciência mostra cada dia mais que embora nosso código genético seja impreterivelmente a junção do DNA de nossa mãe e pai biológico, a gente faz 'o que bem entender' com a expressão dos genes de acordo com nossas escolhas diárias.

Nas palavras do professor Marcelo:

                                                                         "You are what you eat.
                                                                          You are what you do.
                                                                          You are what you experience" 







E isso é a ciência falando. Não é nenhum guru de auto-ajuda! Se você era cético quanto as vantagens do bem viver, esqueça; agora você não tem mais desculpa determinista ("vou morrer do coração mesmo porque toda minha família morreu!!!") pra não viver ou deixar viver.

Referência:
Epigenetic programming by maternal behavior. / Weaver, I C G ; Cervoni, N ; Champagne, F A ; D'Alessio, A C ; Sharma, S ; Seckl, J R ; Dymov, S ; Szyf, M ; Meaney, M J .
In: Nature Neuroscience, Vol. 7, No. 8, 08.2004, p. 847-854.


Obs: há muitos e muitos artigos científicos sobre hábito de vida e epigenética para as mais diversas áreas: atividade física, depressão, obesidade e etc. Se você tiver a referência mas não conseguir acessar o trabalho por algum motivo, pode escrever pra mim que farei o melhor possível para repassar.







segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Com quantas letras A,C,T,G se escreve um genoma de mexilhão?

O mexilhão dourado é uma praga. E nós queremos estudar a sua genética para entendê-lo e combatê-lo. Desde o fim do financiamento coletivo, onde arrecadamos mais de R$40 mil, estamos fazendo isso!


Todo mundo já sabe que o DNA é o código da vida presente em todos os seres vivos: desde os vírus e bactérias até os seres humanos (com a exceção de alguns vírus, que tem RNA como material genético). Esse código é formado essencialmente pela sucessão de quatro letrinhas que formam pares e são na verdade a representação simplificada de nucleotídeos: os A,C,T e Gs do código genético.

Nessas letrinhas está contida toda a informação necessária para a construção e processamento das proteínas, que são os blocos de construção do nosso corpo; são os nossos tijolos. Nem todo o DNA é formado de tijolos, na verdade, eles representam apenas uma pequena porção de todo o código. Tem muito cimento codificado no DNA também, que auxilia na estruturação de todos esses tijolos. E muito DNA ainda não possui função esclarecida: talvez seja apenas a nossa ciência ignorante que não saiba para o que ele serve, mas ele também pode não servir pra nada!

De qualquer forma, o primeiro passo para estudar todas as letrinhas do genoma de uma determinada espécie, no nosso caso do mexilhão dourado, é estimar quantas elas são: quantas letrinhas em sucessão presentes nos diversos cromossomos da espécie são necessárias para construir um mexilhão dourado?

Uma forma científica de fazer isso é comparando a quantidade de DNA presente no núcleo do mexilhão com a quantidade de DNA presente no núcleo das células de outras espécies as quais já conhecemos o tamanho do genoma, por exemplo, os seres humanos.

E foi exatamente esse experimento que desenvolvemos: através de várias técnicas de biologia molecular nós coramos o material nuclear de ambas as espécies, mexilhão dourado e humanos, e um instrumento chamado citômetro de fluxo mediu a fluorescência do corante que tingiu o DNA celular. No núcleo da célula este corante se liga apenas ao DNA e proporcionalmente, dessa forma, o sinal da fluorescência é confiável (se você for cientista e quiser detalhes do protocolo, acesse nosso protocolo online em http://goo.gl/9eulBB).

Nós já sabemos que o genoma humano possui 3 bilhões de letrinhas. O pico de fluorescência do genoma do mexilhão dourado é 3,8 vezes menor que o pico de fluorescência das células humanas. Isso significa que o genoma de L. fortunei é 3,8 vezes menor que o dos humanos e possui em torno de 800 milhões de letrinhas! É letrinha pra caramba!

Como podemos ver, o genoma do mexilhão dourado é muito menor que o humano. Parece lógico, não é? Uma vez que os seres humanos são mais derivados (não é complexo, é derivado o termo correto!) que os mexilhões! Mas não é tão lógico assim não: depois que muitos genomas foram sequenciados ficou claro que o tamanho do genoma não está relacionado à complexidade do organismo. Por exemplo, o maior genoma conhecido na natureza pertence a uma planta, chamada Paris japonica que possui 15% de DNA a mais que o antigo recordista, que adivinha quem era? Um peixe! Nada de ser humano! (reportagem: http://goo.gl/CDiIDR).
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Como falei anteriormente, os genomas são uma mistura de produtores de cimento, tijolos, argamassa, rejunte e todos os ingredientes necessários para se fazer uma casa. Mas no fim das contas, somente mudando a proporção desses ingredientes, não necessariamente adicionando ingredientes mais requintados, conseguimos construir muitas casas diferentes. E é por isso que o tamanho do genoma não tem necessariamente relação com sua complexidade. O que influencia na complexidade é o modo como cada genoma se expressa para formar cada espécie diferente.

Agora que já determinamos que precisamos montar 800 milhões de letrinhas para formar um genoma, temos muito trabalho pela frente! Vamos usar o dinheiro arrecado com o financiamento no catarse para fazer o sequenciamento; determinar a sucessão dessas letrinhas. Após isto, a bioinformática entra em cena e montaremos os genes que serão nomeados em homenagem aos colaboradores! Mexilhão dourado, você não perde por esperar: vamos desvendar o seu código!!


Esta figura mostra a dificuldade que os cientistas tiveram, e continuam tendo, para decifrar os genomas. Sequenciar as letrinhas é só a primeira parte, o mais desafiador é montar e entender as proporções dos diferentes ingredientes que formam a casa de cada espécie! 

domingo, 22 de dezembro de 2013

Terminei de ler - O Polegar do Panda.

"Quando eu tinha quatro anos, queria ser um coletor de lixo. Adorava o barulho das latas e o ruído do compressor; pensava que todo o lixo de Nova Iorque poderia ser comprimido num único e espaçoso caminhão. Então, quando eu estava com 5 anos de idade, meu pai levou-me para ver o Tyranossaurus no Museu Americano de História Natural. Quando nos encontrávamos na frente da fera, um homem espirrou; estremeci e preparei-me para rezar meu 'Shema Yisrael'. Mas o grande animal manteve-se imóvel em toda a sua grandeza óssea e, assim que saímos, anunciei que seria paleontólogo quando crescesse."

De onde vieram os seres pluricelulares? O cérebro das mulheres é menor que o dos homens? Eram os dinossauros estúpidos? Para que serve o polegar do panda?

Ao longo de 31 ensaios, Stephen Jay Gould consegue entreter qualquer pessoa que seja minimamente interessada em saber sobre "coisas". Sobre tudo. É inspirador ler as palavras de Jay Gould pelo conteúdo rico que elas contém, mas também pela inspiração que a vida deste paleontólogo pode nos proporcionar: uma vida em busca da verdade científica norteada pela razão e pelo maravilhamento pelas questões biológicas sem resposta.

Embora tenha sido escrito na década de 1970, o livro de Jay Gould não está ultrapassado. Muito pelo contrário: ele instiga ao desejo da descoberta. Muitas das questões levantadas por ele já foram respondidas nas últimas décadas a partir da análise de DNA. Ao final de cada ensaio, entrei neste canal maravilhoso de informação que é a internet, e fui atrás de cada uma dessas respostas. 

Archaeoropteryx litographica 


Afinal, de onde vieram os dinossauros? Na década de 1970, uma das questões paleontológicas mais discutidas se referia ao parentesco dos dinossauros e das aves. Eram os dinossauros répteis gigantes ou animais de sangue quente? Dessa forma, eram as aves os dinossauros remanescentes? Ou esses magníficos animais voadores com os quais partilhamos o mundo vieram de um ramo da vida não compartilhado com os dinossauros?

Hoje, 4 décadas mais tarde, os cientistas já recolheram informações suficientes para determinar com confiabilidade qual é o parentesco entre aves e dinossauros. Você sabe qual é?




Muito mais do que me permitir aprender e agregar questões biológicas valiosíssimas, o livro de Jay Gould me relembrou que o que nos move na vida é o desejo. Nesse caso específico, o desejo da descoberta. A vida não é se não um sem fim de insatisfação, porque não podemos saber tudo, e é esse desconforto o que nos move pra frente. E é a vontade de melhorar o que nos move. O desejo nos impulsiona: a fazer mais, a querer mais, a demandar um mundo melhor, a sermos menos fatalistas e mais ativos e curiosos. 

Para se inspirar em 2014, Stephen Jay Gould.



sábado, 23 de novembro de 2013

Terminei de ler: "Queda de gigantes"

Resolvi inaugurar no blog a sessão ‘Terminei de ler’. A maior parte, se não todos, os textos desse blog são baseados em questões sobre as quais refleti ao final da leitura de algum livro, é claro. Já escrevi sobre um dos meus livros preferidos “O mundo assombrado pelos demônios” diversas vezes, e ainda preciso apresentar uma resenha do espetacular “Andar do bêbado”. Talvez faça isso agora a partir dessa sessão.

A diferença dela é que é mais direta: hoje gostaria de recomendar o livro do Ken Follet chamado ‘Queda de Gigantes’. Este é o primeiro livro da trilogia ‘O Século’. Ele não é um livro científico, ou sobre ciência. É um livro de história. Mas quem falou que a ciência não está baseada e é totalmente dependente dos fatos históricos? O que dizer sobre o ‘Projeto Manhattan’, que finalizou com a produção da bomba atômica que acabou com a II Guerra Mundial?

Mas afinal, porque os homens fazem guerras? Por que os soldados vão pra linha de frente defender o interesse dos países e das alianças em vez de pensar nos seus próprios interesses?

Para entender essas questões, que parecem tão distantes dos civis das américas ou Europa do século XXI, recomendo fortemente a leitura desse romance histórico. Vale a pena como leitura de lazer. Vale a pena como contextualizador histórico deste século gelado.

Ken Follet contratou oito consultores históricos para escrever a trilogia. Meia dúzia de editores e agentes literários leram as primeiras versões do manuscrito. O segundo livro já está encomendando, aguardo-o ansiosamente.

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1920
“ O exército francês ocuparia a região de fronteira Renânia durante 15 anos. A região do Saar se tornaria um protetorado da Liga das Nações, sendo que os franceses controlariam as minas de carvão locais. A Alsácia e a Lorena seriam devolvidas à França sem plebiscito: o governo francês temia que a população decidisse permanecer alemã. O novo Estado polonês ficaria tão grande que passaria a incluir os lares de três milhões de alemães e as minas de carvão da Silésia. A Alemanha perderia todas as suas colônias: os Aliados as haviam distribuído entre si como ladrões dividindo um butim. E os alemães seriam forçados a aceitar o pagamento de reparações de valor indeterminado – em outras palavras, teriam que assinar um cheque em branco.... O artigo do tratado dizia: “Os Governos Aliados e Associados afirmam, e a Alemanha aceita, a responsabilidade da Alemanha e de seus aliados por todas as perdas e danos os quais os Governos Aliados e Associados, bem como seus respectivos cidadãos, foram submetidos em consequência da guerra a eles imposta pela agressão da Alemanha e seus aliados."

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Nos Estados Unidos.

- Você quer ter filhos? – perguntou Gus.
- Sim!
- Eu também. Espero que o presidente Wilson não esteja certo. Segundo ele, nossos filhos vão lutar em outra guerra mundial.
- Que Deus nos livre!!

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O filósofo Bertrand Russell visitou a Rússia naquele ano e escreveu um livro curto, chamado Teoria e prática do bolchevismo. Russell atacava os bolcheviques não por terem ideais errados, mas por terem ideais certos e não conseguirem coloca-los em prática.

- Isso não quer dizer que esteja errado. Russel é socialista. A acusação dele é que os bolcheviques não estão implementando o socialismo.
- Não se pode fazer um omelete sem quebrar os ovos. – afirmou seu marido, líder do sindicato dos Trabalhadores da Grã Bretanha. 

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- Nosso governo alemão nos traiu – disse seu pai.
- Isso é o que o senhor acha. Mais e daí? Nos Estados Unidos, quando os republicanos venceram as últimas eleições, os democratas não se amotinaram!
- Os Estados Unidos não estão sendo arruinados por bolcheviques e judeus.
- Se o senhor está preocupado com os bolcheviques, então diga às pessoas para não votarem neles. E que obsessão é essa com os judeus?

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sábado, 2 de novembro de 2013

A cola do mexilhão colou meu estômago?

Mesmo depois do sucesso do Crowdfunding do mexilhão dourado, e com o trabalho em andamento no laboratório, continuo recebendo e-mails com perguntas e dúvidas a respeito da invasão de L. fortunei (esse é o mexilhão dourado!) na América do Sul. Nas últimas semanas recebi dois e-mais interessantes, que resolvi compartilhar aqui no blog, porque podem ser dúvidas que outras pessoas também tenham. Peço desculpas aos autores das questões pela demora, mas em virtude de alguns deadlines e principalmente por motivo de saúde, só consegui sentar no computador e parar pra responder nesse momento.

As primeiras questões: Minha maior duvida é, se ele veio da China, como lidaram com o problema por lá? (imagino que comeram todos, como fazem com tudo por lá). Por que o mexilhão dourado não é comestível?

Pois bem! A resposta para a primeira das perguntas é a seguinte: a grande questão é que na China ele não é um invasor! Lá ele é uma espécie nativa. As águas doces asiáticas são diferentes das sul-americanas, lá ele possui predadores naturais, e está em equilíbrio com o ecossistema. Por isso, na Ásia o mexilhão dourado não se reproduz exacerbadamente como ele faz aqui na América do Sul. 

Algumas vezes, quando esse ambiente natural muda, algumas espécies, mesmo nativas, podem sim predominar em detrimento de outras mesmo no seu local natural. Mas não é o caso para o mexilhão dourado na Ásia nesse momento.

E será que os chineses comeram todos os mexilhões dourados? Tenho que concordar com você que eles comem tudo por lá mesmo! Mas acredite: nem os chineses comem ele! Uau! E por que? Simplesmente porque ele tem um gosto muito ruim! Simples assim! Em algumas plantas já são bem conhecidas algumas estratégias contra a predação por insetos herbívoros, como a produção de tanino e fenol ou o aumento da quantidade de espinhos. Fica a questão: será que o ‘mau gosto’, a falta de sabor do mexilhão dourado é uma adaptação anti-predação e que, garante ainda mais o seu sucesso como invasor? Questão boa para se investigar!

A questão do segundo e-mail (não era bem uma questão, era mais um pedido INDIGNADO de resposta!): Sei o quanto você deve ser ocupada, mas não se esqueça de mim! Por favor!!! Aguardo ansiosamente pelas respostas que fiz há uns 3 e-mails atrás, sobre a substância que o mexilhão usa para se grudar nas superfícies! 

Leitor, desculpe a demora em responder você! Aqui está sua resposta: a substância que o mexilhão usar para se fixar chama-se bisso, e é secretada pela glândula do pé. Sim! Os mexilhões tem pé sim! Dê uma olhada no bisso secretado pelo mexilhão marinho Perna perna na figura abaixo.

                                                  Mexilhão P. perna fixo em substrato através do bisso. 
                                                                     Foto por Milla Zinkova


Essa estrutura, que é parecida com um cabelo muito resistente, é formada por um conjunto de cerca de 30 proteínas (que, quando sequenciadas, serão batizadas com o nome dos nossos colaboradores do Catarse!). Estudos mostram que o bisso pode ser até 30 vezes mais resistentes que os tendões humanos! E alguns pesquisadores já investigam a formação de suas placas adesivas na intenção de desenvolver uma cola para materiais molhados. Demais, né? Lembrando que esses estudos estão sendo feitos com bissos secretados por outros mexilhões, pois essa é uma característica comum a essa família, e não é exclusividade do mexilhão dourado.

Lembrando que apesar da falta de tempo, me sinto muito feliz em receber e-mails com dúvidas e questões interessantes, e pretendo responde-los sempre que possível. No mais, volto agora para o descanso seguido da missão de cumprir meus deadlines. Ontem fui a um médico que me diagnosticou com ‘gastrite nervosa’. Embora seja um diagnóstico duvidoso, ele pode ter seu sentido. Fui, como sempre, dar uma investigada na ‘doença’ e encontrei um dado interessante: a gastrite nervosa acomete preferencialmente mulheres jovens. 

Hum... Pausa para reflexão.

Não sei exatamente qual estatística o tal site usou para chegar a essa conclusão, mas deve ter sido a prevalência de casos em mulheres jovens em um determinado consultório médico, ou em vários. Fiquei pensando que de repente faz sentido, por dois motivos: primeiro porque nós mulheres somos umas histéricas-sentimentais-ansiosas! Não fiquem brabas comigo meninas, mas não tem jeito: nosso gênero ganha no quesito drama e na necessidade de prever todo o futuro em apenas dez minutos! Mas nesse momento, não achava que esse era o meu caso. Achava que estava mais para o segundo motivo: essa vida louca, maravilhosa, cheia de liberdade mas também cheia de responsabilidades que vivemos hoje no século XXI! Mas disso os homens jovens, apaixonados e comprometidos com seu futuro (e com o futuro do mundo) também sofrem! De qualquer forma, pra mim alguma lição ficou: não adianta adorar o trabalho mas comer miojo pra compensar as horas gastas ruminando na internet. É preciso aumentar o volume da eficiência, diminuir o da cobrança, aumentar a quantidade de horas a contemplar o teto e levar a vida leve. 

Referências:
- Aoyama & Labinas, 2012: Características estruturais das plantas contra a herbivoria por insetos.  http://www.conhecer.org.br/enciclop/2012b/ciencias%20agrarias/caracteristicas%20estruturais.pdf

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Sobre beagles e imperfeição científica

Já li vários textos muito bons sobre a polêmica do rapto dos cachorros beagles do Instituto Royal, e eu podia só vir aqui e colar vários links para esses textos. Mas resolvi acrescentar apenas uma questão que parece que as pessoas não entendem. ANTES DE VOCÊ PENSAR QUE É CRUEL FAZER TESTES EM BEAGLES EU TE DIGO: O CIENTISTA QUE FAZ JÁ PENSOU NISSO.

Primeiro gostaria de afirmar o quanto acho válida e sinto orgulho dessa discussão toda: o mundo já passou por épocas tão obscuras, onde os seres humanos eram diferenciados uns dos outros por serem negros ou brancos, ciganos, católicos ou judeus. Isso levou a genocídios muito bem conhecidos por nós, como durante a escravidão na colonização das Américas e o holocausto. Mas isso mudou: junto com questões político-sociais, também a ciência, ao final do século XX e início do século XXI provou, a partir do sequenciamento e montagem do genoma humano, que somos todos iguais! Que não há diferença alguma na nossa essência. Pois bem. A partir de toda essa revolução para a dignidade humana terminamos aqui hoje: discutindo a vida de beagles. Eles são cachorros. Isso não é demais? Estamos nos aperfeiçoando como seres humanos. Estamos indo em direção ao mundo mais ideal... Fico muito feliz!

A partir disso, infelizmente, tenho uma má notícia: não temos atualmente maneira alguma de substituirmos 100% das experimentações animais. Não temos. Pode acreditar em mim. Eu não sou jornalista. Sou cientista. Bióloga. Trabalho na área.

Isso, é claro, não significa que tenhamos que ficar de braços cruzados. Mas posso te garantir algumas coisas: quando tu sentires dor ao ver um Beagle sofrer, UM CIENTISTA ANTES DE TI JÁ SENTIU PIOR. Quando pensares que podemos testar in vitro, inventar um jeito novo de fazer, UM CIENTISTA JÁ PENSOU ANTES DE TI EM TUDO ISSO, E ELE JÁ ESTÁ TESTANTO! Quando pensares que a questão é dinheiro, que usar protótipos é caro demais, eu te garanto: BIOTÉRIOS ANIMAIS CUSTAM MUITO DINHEIRO, E OS PROTÓTIPOS NÃO SUBSTITUEM EXPERIMENTAÇÃO ANIMAL. Infelizmente.

Infelizmente. É o que pensam todos os cientistas que eu conheço que trabalham com animais quando pensam sobre o assunto. Todos.

Eu, por exemplo, estou escrevendo esse texto porque eu me importo. Precisava me posicionar.

Entendam uma coisa: os cientistas são seres humanos, não estou dizendo que a ciência não pode ser usada para a maldade. Estão aí os exemplos de ciência nazista que não nos deixam enganar. Mas posso garantir outra coisa: a ESMAGADORA maioria da ciência feita no mundo até hoje já salvou MUITO mais vidas do que as guerras tiraram, ou do que as mortes de animais que ocorrem hoje em dia. Para dar dois exemplos devastadores: vacinas e antibióticos. Pronto. A varíola não existe mais no mundo, ninguém morre de uma infecção bacteriana qualquer.

Mas não digo, e nunca direi, para deixarmos de buscar o mundo ideal. Primeiro: vamos todos virar vegetarianos (todo mundo que está xingando os cientistas já é, certo? Se não, há uma séria disparidade de ideias aí). Estou falando sério. Ou pelo menos, vamos parar de jogar fora aquele pedaço de carne duro que ficou no prato, vamos parar de consumir carne todos os dias... Há vários problemas na indústria de carnes e laticínios, e o pior deles é sustentado pela nossa vontade de não comer aquela carnezinha ‘ruim’ (ao mesmo tempo que milhares de pessoas morrem de fome, e toneladas de carne são jogadas fora todos os dias).

Mas pra finalizar e dar minha contribuição, dou uma dica para os não-cientistas. Se quiserem protestar com razão perante os cientistas, pressionem para que eles parem de fazer tanta pesquisa repetitiva. Porque isso de fato acontece: testes da mesma droga em modelos muito parecidos, concentrações que nunca vão ser usadas e etc. Ou mesmo, para que aulas de fisiologia sejam gravadas, e os vídeos transmitidos. 

Estou com vocês nessa. A ciência, assim como qualquer outro tópico desenvolvido através do homem, tem suas falhas. E precisamos ir atrás delas para corrigi-las. Precisamos de reformas (assim como nossos sistemas políticos e sociais). Mas isso já é história para um outro post, um outro dia...





terça-feira, 20 de agosto de 2013

"O que é felicidade meu amor" ??

Acabo de voltar do lançamento do livro A menina quebrada de Eliane Brum, jornalista gaúcha que escreve as segundas-feiras para o site da revista Época. Gosto muito dos textos da Eliane porque eles contextualizam, trazendo a vertente política (algo que considero importantíssimo), para os diversos tópicos da vida cotidiana. De certa forma, isso é algo que tento fazer também aqui nesse blog (com muito menos competência e mais modestamente que ela, é claro).

Enquanto esperava pela sessão de dedicatórias, me sentei na agradável livraria da Travessa de Ipanema para saborear um cappuccino e as deliciosas palavras de Eliane no livro que acabara de comprar. A menina quebrada é a compilação de umas tantas colunas de Eliane publicada na Época online, e entre elas encontra-se o texto intitulado Vida de clichê. Dentre a meia dúzia de colunas que li hoje a noite, esta foi uma delas, e me motivou a escrever esse pequeno post.

Nessa busca diária por escrever minha própria história – que acabou me trazendo para o Rio de Janeiro para o mestrado e agora o doutorado – uma de minhas maiores revelações pessoais foi a aceitação de um pensamento racionalista, ateísta e existencialista como norteador moral da minha vida. Minha modesta tentativa (diária e incessante) de fazer minha leitura pessoal sobre o mundo direcionou meu pensamento para esta vertente que, de maneira nenhuma, como podem pensar os partidários de certas religiões, desamparou minha vida de sentido. Muito pelo contrário, este novo 'norte moral' me motiva a cada dia.

Um dos maiores questionamentos dos meus amigos e familiares ainda religiosos - que não possuem aquele preconceito exacerbado de que os ateus são más pessoas ou que consideram o sentido pejorativo que ainda é empregado para esta palavra – sobre essa mudança de visão de mundo é justamente sobre o desamparo. Perguntam eles: “mas a falta de uma crença em algo maior não esvazia sua vida de sentindo?”

E é por responder a esta pergunta que volto à coluna da Eliane Brum. No texto Vida de clichê, Eliane conta da carta que recebeu do irmão físico, alguns dias após ela ter escrito sobre nosso ‘afastamento das estrelas’, dizia a carta:

“Somos um acidente evolutivo, ou melhor, apenas um dos inúmeros (sub)produtos. A consciência não tem nada de especial (a não ser para nós, é claro). Nossa posição temporal e geográfica no universo é totalmente irrelevante. A contrapartida é que somos capazes de perceber nossa existência (acredito que, em outros níveis, outros animais complexos também conseguem). A partir daí, o mundo, tal qual percebemos, é TUDO o que temos (e teremos!). Portanto, estamos no centro do NOSSO universo. E isso coincide com as nossas adaptações evolutivas. Assim, nossa cosmologia é encontrar um ponto de contato entre essas duas realidades: a externa, de total irrelevância, e a interna, onde somos centrais (tanto que nosso universo desaparece com a nossa morte). Por isso a religião (que resolve esse problema) é – a meu ver – uma evolução natural da nossa cultura, consequência natural da nossa evolução biológica (esse é o pensamento, mais ou menos entre outros, do Daniel Dennett, em Breaking the spell). Somos believers (crentes). O que eu acho mais interessante no ponto de vista agnóstico (ou ateu) é que, diante dessas percepções, sabemos que somos tudo o que temos (como indivíduo ou como espécie) e, portanto, temos a liberdade e a responsabilidade de definirmos o que queremos ser (como indivíduo e como espécie). A construção do nosso mundo e para onde vamos é nossa responsabilidade. Acho que não pode haver maior riqueza em uma vida do que essa liberdade.”

Resolvi transcrever aqui as palavras do irmão da Eliane porque elas são tudo o que eu penso ser enriquecedor nesse ‘desamparo’ da vida de um ateu. Se considerarmos que a responsabilidade pela nossa felicidade esta em nossas próprias mãos, só basta a nós mesmos escolher o caminho a seguir. É dessa forma que explico aos meus queridos ser, o desamparo do controle de algo maior, uma libertação enriquecedora, porque por mais difícil e complicada que seja a situação na qual eu me encontrar, será escolha minha decidir o que fazer a partir dali, e esta é a maior felicidade que existe. Escolher é fazer a vida a cada dia.


ps: e só para finalizar, não podia deixar de ‘cantar’ meu hino de amor ao Rio de Janeiro: a livraria da Travessa é uma graça e, mesmo a noite, caminhar por Ipanema, com esse clima ameno do inverno carioca, traz prazer e inspiração que podem durar semanas. “Quero a vida sempre assim... ao encontrar você eu conheci o que é felicidade meu amor..”