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terça-feira, 21 de março de 2017

Finalmente: um gene para chamar de seu! Batismos no genoma do mexilhão dourado!

Olá pessoal!!

Chegou o grande dia!! Vamos nomear os genes do genoma nuclear do mexilhão dourado!! Essas são as nossas recompensas da campanha do catarse www.catarse.me/genoma

A montagem do genoma do mexilhão dourado está pronta! Isso significa que nesse momento já conhecemos a sequência de 1,6 bilhão de letras A,C,T e G que codificam todos os genes que dão origem às linhagens celulares, tecidos e órgãos da espécie! Com isso, já podemos iniciar os estudos de engenharia genética; na tentativa de atingir alguns alvos moleculares específicos para conter a reprodução da espécie em áreas de invasão! A ideia é a mesma desenvolvida para o mosquito da dengue transgênico. Antes de qualquer tecnologia ser utilizada no ambiente, no entanto, extensivos testes em laboratório serão realizados para garantir a segurança da tecnologia. Esse trabalho leva meses e anos para acontecer, mas você vai ouvir sobre todas as etapas que estiverem acontecendo: vamos manter você informado!

A finalização da primeira etapa desse projeto – o sequenciamento completo do genoma do mexilhão dourado L. fortunei – é uma grande vitória que precisa ser comemorada: e vocês, crowd do Catarse, fazem parte disso!! MUITO OBRIGADA!

Eu, Marcela Uliano da Silva, fui a bioinformata responsável por organizar os pequenos fragmentos de DNA até a ordem correta correspondente ao genoma do mexilhão dourado. Já escrevi um pouco sobre como isso é feito aqui. Esse trabalho, que foi feito sob orientação do Prof. Dr. Mauro Rebelo e co-orientação do Prof. Francisco Prosdocimi, foi objeto da minha tese de doutorado, defendida no dia 22 de fevereiro de 2017! E por isso também preciso agradecer ao patrocínio de todos vocês: não só estamos trabalhando para livrar a Amazônia da ameaça do mexilhão dourado, mas também esse trabalho me garantiu o título de doutora! GRATIDÃO! MUITO OBRIGADA MAIS UMA VEZ!

Nesse momento, estou terminando de escrever o manuscrito científico - contendo a sequência do genoma nuclear do mexilhão dourado - que vai ser liberado para a comunidade científica internacional, e é nesse manuscrito que desejo agradecer a vocês, colocando os batismos dos genes que vocês escolherem! 



Nessa primeira foto vocês podem ver o Prof. Chico Prosdocimi, eu e o Prof. Mauro Rebelo em 2013, quando defendi meu mestrado e, quando decidimos sequenciar e montar o genoma completo do mexilhão dourado! - Foto no Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, UFRJ.


4 anos depois.... Olha a gente de novo!! =) Deva vez na defesa do doutorado! 
O genoma do mexilhão dourado está pronto! E agora iremos batizar as proteínas 
com os nomes que vocês, colaboradores do nosso projeto no Catarse, 
escolherem para elas!! - Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, UFRJ. 


O esquema é o seguinte: TODOS OS COLABORADORES LISTADOS ABAIXO DEVEM ENVIAR OS SEUS BATISMOS PARA O E-MAIL: marcela.uliano@gmail.com

Você pode escolher qualquer nome! Se tiver dúvida, dá uma olha aqui e veja o nome que algumas pessoas já escolheram para batizar os genes no genoma mitocondrial do mexilhão dourado!


Os doadores que tiverem direito a uma ou mais ilustrações irão receber um e-mail meu com a ilustração personalizada! Mas todos os batismos estarão registrados nos agradecimentos do manuscrito científico, e cada um de vocês vai receber uma cópia desse manuscrito assim que ele estiver publicado!


Muito obrigada mais uma vez! E logo estaremos nos falando de novo! Você está fazendo a ciência brasileira caminhar: SINTA-SE ORGULHOSO!




Atenção, abaixo está a lista de todos os nossos colaboradores não-anônimos, e a recompensa à qual cada um tem direito! Vamos batizar os genes e proteínas até terça que vem, dia 28 de março?? Espero o e-mail de vocês!!!



1-) BATIZAR UMA PROTEÍNA:

- Rafael Tuma Guariento
- Karina Silveira
- Daniel Andrade Moreira
- FFeitosa
- Camila Mauro Borges
- Julia Back Comandolli
- Ingrid Etges Zandomeneco
- Lucas Rech de Oliveira
- Juliana Klein Zucco
- Vinicius Fernandes dos Santos
- Uilian Americo
- Helder da Rocha
- Heitor Dias Murbach
- Rodrigo Ligabue Braun
- Juliana Casagrande Fernandes
- Maysa Ito
- Caio Wagner Pereira Ferreira
- Cássio Batista Marcon
- Marcelo Pinheiro
- Jessica de Aguiar França
- Daniele Botaro
- William Jefferson Fontana da Costa
- Guilherme Machado Nunes
- Samuel Wanberg Lourenço Nery
- Rafael Oliveira Lopes
- Débora Andrade de Lima
- Renata Minerbo
- Vinicius Bassaneze
- Terravixta Studio
- Juliano Bortolozzo Solanho
- Mariano Rodrigues Aloi
- Guilherme de Andrade Palma
- Aurélio Carlos Marques de Moura
- Danilo Neves da Silva
- Vinícius de Medeiros Alves
- Marco Aurélio Ramos Möller
- Igor Drumond
- Eduardo Kawamoto Amaraes
- Pedro Hutsch Balboni
- Marcelo Vargas dos Santos
- Rodrigo Zanatta
- Júlia Andressa Kist
- Caroline Antonelli Santesso
- Andrea Raymundo Balle
- Julia Freitas
- Rafael Chaves
- Ricardo de Souza dos Reis
- Bruno Bottino Ferreira
- Sabrina Alves
- Adriana de Lima Barbosa
- Tiago Fassoni Alves dos Alencar Leite
- Marianne Kreusch
- Rafael dos Santos
- Lucas Junior Teodoro
- Patricia Dupre Moreira Ferraz
- Ana Carolina Pizzochero da Costa
- Jaqueline Dupre Moreira Ferraz
- Ayla Sant'Ana da Silva
- Felipe Caruso
- Larissa Mattos Feijó
- Cássia Rodrigues da Silveira
- Juliano de Miranda
- Leticia Aparecida Z Costa
- Davi Perin Adorna
- André Gomes Julião
- Luiz Sauerbronn
- Iensen Nícolas
- Gustavo Gottschald de Freitas
- João Gabriel Doria
- Guilherme Lopasso Tosi
- Cecilia Fonseca Poggian
- Aline Marcele Ghilardi
- Mayra Silva Soares
- Tatiana Alves Americo
- Tulio Baars Meira
- Luiz Felipe Santana dos Santos
- Humberto Pereira Figueira
- Gabriela Benedet Ramos
- Lucas Machado Cosendey Brouck
- Marcos Chehab Maleson
- Diogo Neves da Costa
- Mariana Magalhaes Ferreira
- Marcelo Pinheiro
- Jackson Reis Ferreira da Silva
- Laura Santini Daros
- Francis Graeff de Oliveira
- Gabriel Moherdaui Vespucci
- Robson Ribeiro Sebastião
- Valeria Kneipp Sena
- Luciano Caletti
- Vivian Kahl 


2-) BATIZAR UM GENE ÓRFÃO + ILUSTRAÇÃO


Rodolfo Henrique de Saboia
Marcos Martins Tinoco
Andre E O P Lico
Aristides de Almeida Neto
André Campos Rodovalho
Leandro Léo Rebelo
Otavio de Andrade Cardoso
Juan Pedro Alves Lopes
Matheus Hobold Sovernigo
gustavo monnerat
Luiz Fonseca
Fabio Hecht
Jean Remy Davee Guimaraes
Ricardo Entz
Thiago de Castro Fialho
Thum Thompson
Thiago Estevam Parente
Orlando Hill
André Henares Campos Silva
Carolina Lage Goulart
Richard Hemmi Valente
Wendy Sauerbronn de Campos Valente
Samuel Gales Guimarães
Érico Gaiger Marshall
ana paula b. moreira
Eduardo Lam
Eduardo Sampaio
Janaína Barcelos Resende
Felipe Antunes do Nascimento e Silva
FLÁVIA RACHEL MOREIRA LAMARÃO
Kleber Lira de Carvalho
Alexandre de Mesquita Hartke
Lucas André de Abreu
Josafa Diniz Araujo Filho
Fabiano Marques
André Luiz Vasconcellos de Araújo
Victor Hugo Barboza
Elis Amaral Rosa
Gabriela Pacheco Corrêa
Márcio Pires Antonio
Diego Borin Reeberg
Alessandra Lehmen
Yanna Christina Koloniaris Barbosa
Mariana Martinhago Aguiar
Diego Remus
Milena Marcela Domingues Pereira
Francisco Prosdocimi
Frederico Queiroga do Amaral
Marcos César Schettini Soares
Julia Lima
Marcio Mazza
Aluisio Lucio da Rocha
Daniele Diniz Warken
Rosane Barbosa de Oliveira
Patricia Sanae Sujii
Karina Silveira
Jackson Reis Ferreira da Silva
Rafael Shoiti Ozaki
Rafael Mesquita Lacerda Madureira
Sabrina da Silva Santos
Magno Botelho Castelo Branco
Karina Silveira
Diego Borin Reeberg
Rodrigo de Oliveira Martins
Tiago Oliboni Rinaldi
Roberto Heidi Utima
Andrea Fiat Coutinho
Manoela Gomes Baptista
MARCOS KIMURA
Marcio Rodrigues Miranda
Mariana Souza da Silveira
Ricardo Alchini
André Rodrigues da Silva
eliane de souza figueiredo
Kelly Ribas Lobato
Anne Caroline Reis Leite
Gabriela Decker  Sardinha
Marcus Marcello Porto Leopoldino
Leonardo Eloi
Eduardo Elael
Rodrigo Augusto da Silva
Rafael de Freitas Sampaio
guacyra do carmo pereira
Henrique Bittancourt Gouveia
Glauber Dutra Ramos
Denis Deratani Maua
Vitor Rocha Schietti Cruz
Rafael Mariante Meyer
Emilio Lanna
Olavo Bohrer Amaral
Débora Lanznaster
MARIANA WAGNER DA ROCHA
Raquel Stoltz Back
Radical Livre
Fernando Ariel Genta
Fabricio Docema de Oliveira
Luiza Amalia do Livramento Meireles
ADRIANO MONTEIRO DE CASTRO

3-) BATIZAR UMA ENZIMA CATALÍTICA + ILISTRAÇÃO

João Batista de Mello
Marcelo Simões Rezende
Emanuel Barbosa de Castro e Moura
Luiz Fernando Nicolai Weinmann
Leila Costa Vecchio
Gracielle Vendruscolo Braga
THIAGO CRUZ NEGREIROS
Rafael Trevisan
Daniel Adesse Pedra Martins
Rafael Dourado
Daniela Stramandinoli Matheus Peres
Francisney Pinto do Nascimento
Caio Bustani Andrade
Diego Pinheiro Sergio
Marília Lima Lodetti
PEDRO CAMILO MAISTRO
David Majerowicz
Mauricio Homem de Mello
Fernando Denardi Cibulski
Márcia Miyuki Hoshina
Jonatha Chrys Ballet das Neves
André Luiz Alves de Sá
Henrique Cesar Lemos Jucá
Eleonora Kurtenbach
Heloísa Anachoreta Molleri
Sergio Luis Silva Silvestre
Tiago Cruz Alexandre
Renato Pinheiro Freme Lopes Lucindo
Giovana Girardi
Anna Beatriz Robottom Ferreira
Anna Lucia Ferreira Schubert
Christian Robottom Reis
Gustavo Seichi Inouye Shintate
Claudia Augusta de Moraes Russo
Cynthia Chester Cardoso
Debora Theodoro Amancio da Silav
Flávia A. Ventura
Jeamylle Nilin
Bianca Lucchesi Targhetta
Silvio Kozasa
Rogerio magalhaes pastore
Julia Crespo Viegas
Gabriel Correa Pereira
Carlos Eduardo Lessa Pissuto
Daniela Stramandinoli Matheus Peres
Daniela Stramandinoli Matheus Peres
Thiago Augusto Pimenta Viana
Diego Perin Adorna
Maria Gonzalez Rey
PAULO BANDEIRA
Marcos Eugênio Maes
Marcela Bergo Davanso
IGOR RECHETNICOW
Diogo Biazus

4-) BATIZAR UMA VIA METABÓLICA + ILUSTRAÇÃO. Vocês podem escolher o nome da Via Metabólica completa e mais uns 10 nomes de enzimas específicas!! (OBS: vocês já podem ir pensando os nomes, mas esperem o meu e-mail com a especificação da via metabólica selecionada para cada um!!)

Adalberto R. Vieyra
TOMIO MAKIHARA
Alexandre Fernandes e Souza
Felipe Guimarães Marques
Ricardo Antônio Rubens Prado Schneider
Emanuel Barbosa de Castro e Moura
Turini Alberto
Marzia Terrizzano / IKZUS RICERCHE MARE E AMBIENTE
Red Bull Amaphiko
Gustavo do Amaral Martins






domingo, 14 de setembro de 2014

O que é o programa TED Fellows?

Depois de ver a expressão de dúvida no rosto de vários amigos quando contei a novidade, resolvi escrever uma nota explicativa sobre minha entrada como membro da comunidade de TED Fellows, que me garantiu uma talk de 5 minutos durante o próximo TED Global, que vai acontecer no Rio de Janeiro de 5 a 11 de outubro.

Mas afinal, o que é a comunidade dos TED Fellows?

Pela própria descrição do site, o TED Fellows é uma rede de colaboração interdisciplinar para jovens inovadores. O seu trabalho tem um impacto positivo no mundo? Visa a coletividade? Então você pode aplicar para ser um TED Fellow! A ideia é que essa rede de contatos permita que o seu trabalho tenha um impacto ainda mais efetivo, a partir da divulgação e do contato com pessoas que possam fortalecê-lo. 

Todos os anos, as conferências TED trazem palestras inspiradoras de profissionais das mais variadas áeas. A missão do TED, organização sem fins lucrativos, é divulgar boas ideias, geralmente sob a forma de palestras curtas (18 minutos ou menos). O TED surgiu primeiramente como uma conferência unicamente sobre tecnologia, entretenimento e design, daí a sigla. No entanto, atualmente abrange quase todos os tópicos - desde ciência, assuntos empresariais, até questões globais - em mais de 100 línguas diferentes. 

Tenho certeza de que você, alguma vez na sua vida, já assistiu a uma  TED talk, certo? 

Ainda não?? Então o que você está fazendo com a sua vida? Pare de ler esse texto imediatamente e vá logo assistir alguma.

Quer umas dicas? É tão difícil! Tem muita coisa boa lá. Mas tudo bem, posso tentar:

Zak Ebrahim: http://goo.gl/ThBq15 
Brené Brown: http://goo.gl/ep45zM
Ken Robinson: http://goo.gl/YYuF5z
Mary Roach: http://goo.gl/EbMihg

Dentro dessa iniciativa, estão os TED Fellows. Durante as conferências (TED e TEDGlobal), além das palestras de 18 minutos dos TED speakers, são apresentadas palestras curtas (4-5 minutos) pelos TED Fellows falando sobre o seu trabalho. Muitas delas estão disponíveis no site do TED e você pode acessar aqui.

Minha entrada na comunidade dos TED Fellows se relaciona ao meu trabalho de doutorado; o sequenciamento do genoma do mexilhão dourado, espécie invasora que tem causado sérios danos ambientais e econômicos na América do Sul. Nunca ouviu falar desse projeto? Esse vídeo pode te ajudar.

Vou contar no TED um pouco da nossa jornada para sequenciar o genoma dessa espécie, e sobre nossa busca por estratégias biotecnológicas de controle dessa praga, a partir das dicas que o perfil molecular da espécie, o seu genome, está nos trazendo. Esse trabalho eu obviamente não desenvolvo sozinha. Além dos pilares fundamentais, meu orientador Dr. Mauro Rebelo, e co-orientador Dr. Francisco Prosdocimi, há mais pesquisadores envolvidos, e pelo menos mais 361 financiadores

Conheça o time dos 20 TED Fellows de 2014, que tem 3 brasileiros.




 Se você morresse hoje, que falta faria para o mundo?

...

As inscrições para concorrer a uma vaga para ser TED Fellow 2015 estão abertas. Corre lá! http://fellowsblog.ted.com/2014/08/25/apply-to-be-a-ted2015-ted-fellow


Mais sobre os TED Fellows: http://papodehomem.com.br/como-se-juntar-a-rede-ted/




sábado, 2 de novembro de 2013

A cola do mexilhão colou meu estômago?

Mesmo depois do sucesso do Crowdfunding do mexilhão dourado, e com o trabalho em andamento no laboratório, continuo recebendo e-mails com perguntas e dúvidas a respeito da invasão de L. fortunei (esse é o mexilhão dourado!) na América do Sul. Nas últimas semanas recebi dois e-mais interessantes, que resolvi compartilhar aqui no blog, porque podem ser dúvidas que outras pessoas também tenham. Peço desculpas aos autores das questões pela demora, mas em virtude de alguns deadlines e principalmente por motivo de saúde, só consegui sentar no computador e parar pra responder nesse momento.

As primeiras questões: Minha maior duvida é, se ele veio da China, como lidaram com o problema por lá? (imagino que comeram todos, como fazem com tudo por lá). Por que o mexilhão dourado não é comestível?

Pois bem! A resposta para a primeira das perguntas é a seguinte: a grande questão é que na China ele não é um invasor! Lá ele é uma espécie nativa. As águas doces asiáticas são diferentes das sul-americanas, lá ele possui predadores naturais, e está em equilíbrio com o ecossistema. Por isso, na Ásia o mexilhão dourado não se reproduz exacerbadamente como ele faz aqui na América do Sul. 

Algumas vezes, quando esse ambiente natural muda, algumas espécies, mesmo nativas, podem sim predominar em detrimento de outras mesmo no seu local natural. Mas não é o caso para o mexilhão dourado na Ásia nesse momento.

E será que os chineses comeram todos os mexilhões dourados? Tenho que concordar com você que eles comem tudo por lá mesmo! Mas acredite: nem os chineses comem ele! Uau! E por que? Simplesmente porque ele tem um gosto muito ruim! Simples assim! Em algumas plantas já são bem conhecidas algumas estratégias contra a predação por insetos herbívoros, como a produção de tanino e fenol ou o aumento da quantidade de espinhos. Fica a questão: será que o ‘mau gosto’, a falta de sabor do mexilhão dourado é uma adaptação anti-predação e que, garante ainda mais o seu sucesso como invasor? Questão boa para se investigar!

A questão do segundo e-mail (não era bem uma questão, era mais um pedido INDIGNADO de resposta!): Sei o quanto você deve ser ocupada, mas não se esqueça de mim! Por favor!!! Aguardo ansiosamente pelas respostas que fiz há uns 3 e-mails atrás, sobre a substância que o mexilhão usa para se grudar nas superfícies! 

Leitor, desculpe a demora em responder você! Aqui está sua resposta: a substância que o mexilhão usar para se fixar chama-se bisso, e é secretada pela glândula do pé. Sim! Os mexilhões tem pé sim! Dê uma olhada no bisso secretado pelo mexilhão marinho Perna perna na figura abaixo.

                                                  Mexilhão P. perna fixo em substrato através do bisso. 
                                                                     Foto por Milla Zinkova


Essa estrutura, que é parecida com um cabelo muito resistente, é formada por um conjunto de cerca de 30 proteínas (que, quando sequenciadas, serão batizadas com o nome dos nossos colaboradores do Catarse!). Estudos mostram que o bisso pode ser até 30 vezes mais resistentes que os tendões humanos! E alguns pesquisadores já investigam a formação de suas placas adesivas na intenção de desenvolver uma cola para materiais molhados. Demais, né? Lembrando que esses estudos estão sendo feitos com bissos secretados por outros mexilhões, pois essa é uma característica comum a essa família, e não é exclusividade do mexilhão dourado.

Lembrando que apesar da falta de tempo, me sinto muito feliz em receber e-mails com dúvidas e questões interessantes, e pretendo responde-los sempre que possível. No mais, volto agora para o descanso seguido da missão de cumprir meus deadlines. Ontem fui a um médico que me diagnosticou com ‘gastrite nervosa’. Embora seja um diagnóstico duvidoso, ele pode ter seu sentido. Fui, como sempre, dar uma investigada na ‘doença’ e encontrei um dado interessante: a gastrite nervosa acomete preferencialmente mulheres jovens. 

Hum... Pausa para reflexão.

Não sei exatamente qual estatística o tal site usou para chegar a essa conclusão, mas deve ter sido a prevalência de casos em mulheres jovens em um determinado consultório médico, ou em vários. Fiquei pensando que de repente faz sentido, por dois motivos: primeiro porque nós mulheres somos umas histéricas-sentimentais-ansiosas! Não fiquem brabas comigo meninas, mas não tem jeito: nosso gênero ganha no quesito drama e na necessidade de prever todo o futuro em apenas dez minutos! Mas nesse momento, não achava que esse era o meu caso. Achava que estava mais para o segundo motivo: essa vida louca, maravilhosa, cheia de liberdade mas também cheia de responsabilidades que vivemos hoje no século XXI! Mas disso os homens jovens, apaixonados e comprometidos com seu futuro (e com o futuro do mundo) também sofrem! De qualquer forma, pra mim alguma lição ficou: não adianta adorar o trabalho mas comer miojo pra compensar as horas gastas ruminando na internet. É preciso aumentar o volume da eficiência, diminuir o da cobrança, aumentar a quantidade de horas a contemplar o teto e levar a vida leve. 

Referências:
- Aoyama & Labinas, 2012: Características estruturais das plantas contra a herbivoria por insetos.  http://www.conhecer.org.br/enciclop/2012b/ciencias%20agrarias/caracteristicas%20estruturais.pdf

sexta-feira, 12 de julho de 2013

A burocracia para a importação de material científico

Com o fim bem sucedido do financiamento colaborativo para o sequenciamento do genoma de L. fortunei, só nos resta comemorar e trabalhar! Como já explicamos antes, a montagem de um genoma leva uma quantidade considerável de tempo, e por isso as recompensas que prometemos _ o nome nos genes e proteínas descritos para esse genoma _ vão chegar tardiamente, ao final do projeto.  Mas isso não significa que você não possa ficar sabendo do que anda rolando aqui pelo nosso lab!

Para conhecer o projeto: www.catarse.me/genoma

Um dos destinos do dinheiro que arrecadamos de você através do Catarse, é a compra dos kits e reagentes para sequenciar as bilhões de letrinhas A, C, G e T que constituem o genoma do mexilhão dourado. O método de sequenciamento que utilizaremos é moderno, de alta tecnologia, e embora tenhamos essas máquinas no Brasil, os químicos utilizados com elas não são produzidos aqui, e por isso precisamos importá-los. E aí começa o drama:
químicos
- Você sabia que, além de não produzir essa tecnologia de ponta aqui no Brasil, a importação de material científico leva o dobro ou o triplo do tempo (entre 60-90 dias) para chegar aqui do que em outros países que também importam?
É isso mesmo! Tal situação ocorre porque os produtos destinados à ciência são submetidos às mesmas leis que outros tipos de materiais importados. O resultado final é o caos: as altas taxas da Receita Federal, somado a fiscalização lenta e inexperiente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) atrasam demasiadamente a entrega de tais materiais aos laboratórios. Isso implica na perda de competitividade da ciência brasileira ao produzir inovação: o acesso muito mais facilitado aos materiais por cientista de outros países lhes confere uma grande vantagem nas pesquisas.
Mas o pior não é isso! Se o material chega, já ficamos felizes! Porque as estatísticas não mentem: um levantamento realizado pelo Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ com 165 cientistas, apontou que 76% deles já tiveram material apreendido na alfândega. Nesse processo burocrático, os reagentes perdem a validade e estragam, e muitas vezes nunca são liberados. Ainda, 99% dos entrevistados já desistiram ou desviaram os rumos de suas pesquisas em virtude das dificuldades criadas pela burocracia.
Se o Brasil é de fato o ‘país do futuro’, e quer ter competitividade internacional também nos setores de desenvolvimento de ciência e tecnologia, está mais do que na hora de mudar essa situação! E o deputado federal Romário de Souza Faria concorda com isso: sabendo da atuação do deputado na área das doenças raras, pesquisadores se mobilizaram e procuraram pelo parlamentar, que elaborou o Projeto de Lei 44111/2012. O PL visa alterar a lei 8.101/1990, para eliminar as dificuldades que os pesquisadores enfrentam no processo: um cadastro nacional de instituições e profissionais autorizados a importar materiais científicos seriam retirados sem burocracia e de forma isenta de cobranças pela Receita Federal e pela Anvisa.
Nas palavras da redação da revista Galileu: “é uma ideia até certo ponto óbvia. O mínimo que um país faz é não atrapalhar pessoas que dedicam sua vida ao conhecimento”.
O PL foi bem aceito até agora, mas enfrenta a burocracia do sistema político brasileiro: se encontrar parecer favorável da Comissão de Seguridade Social e Família, ainda terá que passar pela Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática, pela Comissão de Finanças e Tributações e, finalmente, pela Comissão de Constituição e Justiça.
Uma outra solução para facilitar o processo de importação de material científico já foi apresentada anteriormente e se chama CNPq Expresso. Ambos preveem a rapidez na liberação dos materiais, no entanto, a PL prevê a isenção dos impostos, além de ser um projeto de lei, que propõe mudar a legislação federal. O CNPq Expresso é apenas um ato normativo.
Estamos na torcida pela aprovação da PL! E se você quiser ver o genoma do mexilhão dourado sair rapidinho, deveria ficar de olho também!

sábado, 22 de junho de 2013

E depois do fim do Crowdfunding...

Desde o final bem sucedido do Crowdfunding para sequenciar o genoma do mexilhão dourado, a blogueira não teve tempo de parar aqui e escrever alguma coisa.

Além do dinheiro arrecadado que vai nos ajudar muito a concluir esse projeto, esta iniciativa nos trouxe muitas outras inestimáveis alegrias.

O professor Mauro escreveu um texto muito bom sobre tudo isso no blog dele, e recomendo a leitura. Pois muito do que eu gostaria de escrever aqui, já foi impresso nas palavras dele. É este aqui: http://scienceblogs.com.br/vqeb/2013/06/ativismo-cientifico/

Para mim _ que idealizei criar este blog a fim de dividir com todo mundo a felicidade que sinto por viver nesse mundo científico, tentando explicar de uma forma simples alguns tópicos científicos bastante relevantes do nosso tempo _ a felicidade extrema de saber que hoje em dia muitos brasileiros entendem meu projeto de doutorado, consideram a importância e o apoiam é algo realmente encantador! Não tenho como não ficar emocionada!

Em meio aos protestos e manifestações que estão rolando pelo Brasil, gostaria de fazer minhas às palavras do professor Mauro, " ...em tempos de protesto daqui e de lá. Eu, que não sei de que sair na rua vai adiantar, encontrei a minha maneiro de mostrar, que tem outro jeito de fazer a coisa mudar...".

Nos próximos meses além de posts emocionados, você vai poder ler sobre o andamento científico do projeto. Fique atento! Continuo contando com o seu entusiamo para juntá-lo com o meu e, então, concluir esse projeto com êxito!

Obrigada mais uma vez, Crowd!

Para entender o projeto: www.catarse.me/genoma

Foto tirada no dia da minha defesa de mestrado, quando sequenciei e montei a primeira parte do genoma do mexilhão dourado: os seus genes expressos, chamado de transcriptoma. Meu co-orientador, prof Chico Prós na minha direita, e o orientador Mauro Rebelo na esquerda. Time de primeira!



quinta-feira, 18 de abril de 2013

Qualquer semelhança não é mera coincidência!

Pessoal, hoje venho apresentar pra vocês, pessoalmente e em forma de cartoon, um projeto que tem trazido grandes alegrias para o nosso Laboratório de Biologia Molecular Ambiental, aqui na UFRJ! É o meu projeto de doutorado, o sequenciamento do genoma do mexilhão dourado, que está no site Catarse para um financiamento colaborativo!




Dê uma olhada no vídeo do site! Só leva 4 minutinhos! http://catarse.me/pt/genoma





A ideia deste Crowdfunding (que significa 'financiamento colaborativo') surgiu há mais ou menos 4 meses: no nosso lab sempre discutimos formas de popularizar a ciência! Formas de mostra a você, que não é cientista, o quanto nossos estudos são legais e IMPORTANTES!

É corriqueiro observar o paradoxo da sociedade atual: todos os aparelhos e  objetos que você usa diariamente (seu celular, pílula anticoncepcional, carro, chuveiro elétrico, computadores, Ipads, Itudo, embalagens ecologicamente corretas..) são produtos científicos!! Mas, ao mesmo tempo, passamos a vida achando que o cientista é aquele que fica lááá na Universidade longe da gente...

Foi para explicar o que fazemos e permitir a você fazer ciência conosco que lançamos esse Crowdfunding!! Se você fizer uma doação em dinheiro para esse projeto a partir de R$20, vai estar participando DIRETAMENTE dos estudos do combate a invasão do mexilhão dourado, que está beirando águas amazônicas (acesse o site para detalhes http://catarse.me/pt/genoma!! E pode escrever pra mim se tiver alguma dúvida! marcela.uliano@biof.ufrj.br). 

Sinceramente, a oportunidade de participar de um Crowdfunding científico é quase como votar: você PODE escolher participar ativamente desta nossa proposta a favor da biodiversidade amazônica!

MUITAS pessoas já se envolveram nesse projeto e estão colaborando conosco! Nos últimos dias alguns cientistas da computação se voluntariaram para nos ajudar com os desafios computacionais que vamos enfrentar quando estivermos montando o genoma... isso não é demais?? Você também não quer fazer parte deste estudo conosco?? Contribua no site!!

Se você já leu argumentos suficientes para colaborar conosco, você pode parar de ler esse post agora e entrar no site para se cadastrar! Mas eu queria, para finalizar, responder uma última questão que surge recorrentemente entre os colaboradores, e que pode ser também a sua!

SE ESSE PROJETO É TÃO IMPORTANTE, POR QUE O GOVERNO FEDERAL NÃO FINANCIA?

Resposta: Ele faz isso!!! Por exemplo, durante meu mestrado, fomos contemplados com o edital Universal do CNPq para sequenciar o transcriptoma do mexilhão dourado! A grande questão é que sequenciar um genoma inteiro custa muito dinheiro! Alééém disso, como pensamos que a preservação da biodiversidade amazônica é de interesse de todos os brasileiros (e seres humanos do mundo todo!), pensamos que você também deveria ter a oportunidade de participar ativamente deste trabalho!!

Quando qualquer outra dúvida surgir, escreva pra gente! Estaremos empolgados e felizes esperando para te responder!! E não esqueça de divulgar o projeto no seu facebook e por e-mail para seus amigos! Os cientistas do Lab BioMA, e a biodiversidade aquática brasileira, agradecem! ;-) 




terça-feira, 2 de abril de 2013

Um encontro com o mexilhão dourado!


Neste final de semana deixei o Rio de Janeiro e fui dar um passeio em Porto Alegre. Eu estava à procura do mexilhão dourado, Limnoperna fortunei, organismo objeto de minha pesquisa de doutorado.  Lá no sul, não foi difícil encontrá-lo!




Durante minha busca conheci o senhor França, por coincidência, um catarinense criciumense mas que vive há anos no Rio Grande do Sul e trabalha como pescador no delta do Rio Jacuí. Além da ajuda inestimável durante a coleta, o simpático França me contou dos problemas que o mexilhão dourado causa para os pescadores da região: é incrustação danificando barcos e materiais de pesca o ano todo! E o seu França está certo: estimativas afirmam que os gastos anuais devido aos danos causados no sul do Brasil unicamente por causa deste bivalve podem chegar a R$1 milhão! 

Meu projeto de doutorado, que desenvolvo no Laboratório de Biologia Molecular Ambiental (BioMA) do Instituto de Biofísica (IBFFC) da UFRJ, envolve o sequenciamento do genoma deste mexilhão. Você nunca ouviu falar dele? Há um outro texto deste blog, este aqui, que conta um pouquinho mais da história deste bivalve invasor.

A ideia é entender, a partir da montagem do genoma, quais características adaptativas facilitam o sucesso desta espécie como uma invasora tão eficiente!

O mexilhão dourado é chamado de “engenheiro de ecossistemas”, pois ele transforma os novos locais onde é introduzido, via de regra causando uma homogeneização do local, ou diminuição da biodiversidade. E nós não queremos isso, né? Nós achamos que quanto mais diverso e diferente melhor, certo?

Este mexilhão ainda não está presente em águas amazônicas, e meu projeto de doutorado faz parte de uma iniciativa maior para não deixar que ele chegue até lá! Nos próximos dias, você vai saber, através deste blog, de qual maneira poderá nos ajudar nesta empreitada pela manutenção da biodiversidade amazônica! Fique de olho! 







segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O mexilhão dourado e seu transcriptoma


Há algumas semanas, entre os dias 25 e 30 de setembro, vivi bons momentos entre amigos em um verdadeiro paraíso tropical; a praia pernambucana Porto de Galinhas. Não, não estava lá para tirar as boas e merecidas férias. Mas fui por um outro motivo também fortemente motivador, a ciência; fui participar do XII Congresso Brasileiro de Ecotoxicologia.

Minha participação envolveu uma breve apresentação do meu próprio trabalho de mestrado. Já expliquei aqui nesse blog brevemente que estou estudando a genética de dois moluscos bivalves, o mexilhão de água doce invasor Limnoperna fortunei e o marinho Perna perna.


Estou montando um perfil transcriptômico para ambas as espécies. Montar um transcriptoma é parecido com montar um genoma, que tenho certeza que você já ouviu falar sobre. A diferença é que um transcriptoma representa apenas uma parte do genoma; a que contém os genes. O genoma inteiro possui várias regiões chamadas não codificantes, que representam um desafio na montagem. Com o transcriptoma, não estamos preocupados com esta parte.

E porque estou fazendo isso? A razão para sequenciarmos e mapearmos os genes para ambas as espécies é diferente entre si. Este post trata das razões pelas quais estou montando o transcriptoma de Limnoperna fortunei, o mexilhão dourado.

Na verdade, muitas pessoas já ouviram falar dele. Este organismo é um invasor asiático, presente em águas sul americanas desde o início da década de 1990. Ninguém sabe ao certo, mas temos boas razões para imaginar que o mexilhão dourado fez sua viagem da Ásia até aqui em água de lastro de algum navio. Em 1991, pesquisadores encontraram os primeiros espécimes no porto de Buenos Aires, na Argentina. E, desde então, ninguém conseguiu impedí-lo de se estabelecer por aqui! Atualmente ele está presente nos maiores rios da América do Sul, como os rios da Prata, Uruguai, Paraguai e Paraná. Também anda infestando o lago Guaíba, no sul do Brasil, e alguns outros rios e lagos da região. A distribuição limite norte do mexilhão dourado é a cidade de Cáceres. Adivinhe? No coração do Pantanal Brasileiro.

Ok. Temos um mexilhão novo em nossas águas. E daí?

Vários 'daís'. Dentre as diferentes características biológicas que este mexilhão possui e que facilitam seu sucesso como invasor, uma bastante marcante é a capacidade de produzir densas populações. Quando esta espécie foi encontrada pela primeira vez na Argentina, em 1991, a densidade da população era de 5 organismos / m2. Em 2002, este número chegou a 150 mil organismos / m2. É, é muito mexilhão junto! 

E este é um dos motivos que tem dado dor de cabeça às companhias de abastecimento de água e usinas hidrelétricas. A larva de L. fortunei é planctônica (e por isso, muito pequena!!). Através delas ele consegue ultrapassar filtros e grades desses estabelecimentos e acaba se alojando em localidades onde o impacto da água não é tão severo. No caso das usinas hidroelétricas, são os trocadores de calor. Uma vez lá, eles começam a crescer sem parar, resultando nisso!



O que você vê aí é uma turbina de usina hidrelétrica infestada de mexilhões dourados! Já pensou? Pois é, com essa dispersão toda pela América do Sul, o mexilhão já chegou em grandes usinas como Itaipu, e à sistemas de várias companhias de abastecimento de água da Argentina. Os gastos econômicos que ele tem causado não têm sido desprezíveis!

Mas se um mexilhãozinho como este tem a capacidade de se reproduzir desta forma empatando o trabalho das usinas, já pensou o que ele pode fazer ao meio ambiente? Pense, uma vez introduzido em novas águas, ele rapidamente começa a se reproduzir, aderindo em qualquer superfície que 'vê' pela frente. Vários cientistas tem prestado atenção nele, e muitas mudanças nos ecossistemas onde ele se insere já foram noticiadas. O mexilhão dourado é considerado um engenheiro de ecossistemas. Isso significa que ele modifica os ambientes onde vive. Aqui nas águas sul americanas, suas densas populações têm diminuído os números de algumas populações artrópodes, uma vez que o mexilhão literalmente cresce em cima destes e os mata por asfixia. Por outro lado, sua farta presença tem aumentado substancialmente a população de certos peixes, uma vez que ele se tornou um novo, suculento e disponibilíssimo menu alimentar!

Não quero me alongar muito, porque sei que você tem outras coisas para ler/fazer, mas uma coisa preciso afirmar: todos os estudos considerando o mexilhão dourado um engenheiro de ecossistemas e analisando as modificações que ele tem causado em seu caminho de invasão confirmam; a presença de tal molusco diminui a biodiversidade das áreas invadidas. E você quer saber de uma coisa? A partir de Cáceres, seu ponto final de distribuição até então, ele só tem que percorrer em torno de 150 km até chegar ao rio Téles Pires, que por sua vez, se encontra com o Rio Tapajós, já pertencente a Bacia Amazônica. Isso. Ele está a 'um pulinho' de invadir águas amazônicas, águas essas que guardam a maior biodiversidade aquática do mundo. Do mundo inteiro!

E por essa razão, chegamos ao motivo do meu mestrado. Minha intenção, montando o quebra cabeça dos genes desta espécie, é entender melhor a biologia do mexilhão dourado. O que ele tem que o faz capaz de se estabelecer em rios tão distantes uns dos outros? Como é possível que ele tenha sobrevivido todo o caminho da Ásia até aqui? E que história é essa de sair se fixando em tudo quanto é superfície e criando aquelas populações imensas?

Se acharmos respostas para algumas dessas questões, é possível que encontremos a maneira de conter esta invasão.

Um estudo de montagem de quebra cabeças deste tipo já mostrou que os genomas e transcriptomas tem muito a acrescentar em lutas como esta. Recentemente foi publicado na Nature, revista científica de alta relevância, o genoma da ostra-do-pacífico, de nome científico Cassostrea gigas. Este outro molusco bivalve, parente do mexilhão dourado, também se adapta bem a diferentes ambientes aquáticos. Uma das características mais marcantes é sua resistência a longos períodos desabrigado da água, devido às marés. Pois bem, os cientistas chineses estudando este animal já notaram que ele possui uma grande quantidade de proteínas de choque térmico, proteínas estas responsáveis por manter o metabolismo do organismo saudável em situações de estresse. Repare, enquanto os seres humanos possuem apenas 17 dessas proteínas, esses bivalves possuem 39.

Interessante, não? E é este tipo de investigação que eu e meu grupo de trabalho, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, estamos fazendo também para o mexilhão dourado. Qual tipo de proteínas ele possui que podem estar ajudando nesta atividade invasora? E melhor, quais dessas proteínas, essenciais para sua vida, podem ser alvos de estratégias de controle dessa invasão?

Estamos em reta final na busca por respostas à essas perguntas. Além disso, gostaria de dedicar três linhas deste post à prosear sobre a maravilha da biologia destes bivalves. Animais tão simples como a ostra-do-pacífico e o mexilhão dourado capazes de tanto! A ostra, que comemos rotineiramente e nem se quer a admiramos um minuto por poder passar tanto tempo fora da água (Quanto tempo mesmo que os seres humanos conseguem ficar sem respirar? 5 minutos, no máximo?). E o mexilhão dourado, desbravando águas nunca antes exploradas com tanto sucesso! 

Já chegamos a lua, mas sabemos tão pouco sobre organismos que estão tão intimamente relacionados conosco em nosso dia-a-dia! Neste momento, pelo menos, nossos cientistas e nossa bela ciência precisam ter humildade suficiente e admitir com entusiamo: temos muito ainda o que aprender!