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sexta-feira, 24 de junho de 2016

Breve comentário sobre as ações humanas

Isso aqui é apenas uma nota de desabafo. Faz tempo que não escrevo ou apareço por aqui, e isso me pesa. Mas é momento de concentração para terminar o doutorado. 

No entanto, no caminho hoje de manhã para a UFRJ li uma passagem de Ensaios Céticos de Bertrand Russell e tive o sobressalto e a vontade de vir compartilhar. Essa passagem não é somente a perspectiva de um homem cético sobre a cegueira humana no momento em que ele vivia. É também um relato histórico do século XX. E lido agora no século XXI, é impossível não sentir um aperto no peito. A histórica se repete? Coloco aqui o ponto de interrogação na esperança da dúvida.
Como cientista em formação e comunicadora, fico a pensar se nós - cientistas, comunicadores e historiadores - falhamos ao comunicar. Seriam as guinadas à intolerância da humanindade nesse momento decorrentes da ignorância científica e histórica? Ou não; a cruel e indigesta realidade seria o fato de que por mais que sejamos a população humana mais educada de todas as eras humanas, nossa paixão por crenças irracionais fala mais alto.

O século XX foi marcado por preconceito e totalitarismo, inclusive na ciência. A eugenia foi estudada e defendida por cientistas europeus recorrentemente nesse século. No século XXI, no entanto, ficamos menos ignorantes perante a nossa própria biologia; uma das maiores conquistas deste século foi o sequenciamento do genoma humano e a constatação definitiva de que não existem raças humanas: somos todos humanos com as mesmas potencialidades.


Nesse cenário, como é que ainda há espaço para Bolsonaros e Donald Trumps? 

Quando acertar suas contas com a história, o século XXI não poderá atribuir a sua intolerância à ignorância.

A história se repete. (?) Vamos ler Russell.

Bretrand Russell, filósofo e matemático pacifista, escreveu essa passagem no período entre guerras no século XX (entre a Primeira e a Segunda Guerra mundial). Mal sabia ele o que estava por vir mas décadas que se seguiram. 
“O quanto podem ou devem as ações humanas ser irracionais?
… Shakespere reuniu “o lunático, o amante e o poeta”, todos com imaginação substancial. O problema é ficar com o amante e o poeta, sem o lunático. Darei um exemplo. Em 1919, vi As mulheres de Tróia encenada no Old Vic. Existe uma cena insuportavelmente patética, na qual Astianax é condenado à morte pelos gregos por medo de que se torne um segundo Heitor. Quase todos choravam no teatro e a platéia achou a crueldade dos gregos, na peça, difícil de acreditar. No entanto, essas mesmas pessoas que choravam estavam, naquele momento, praticando a mesma crueldade em uma escala que a imaginação de Eurípides jamais poderia contemplar. Haviam acabado de votar (a maioria delas) em um governo que prolongava o bloqueio à Alemanha após o armistício e impunha o bloqueio à Rússia. Sabia-se que esses bloqueios causariam a morte de um grande número de crianças, mas desejavam diminuir a população dos países inimigos: as crianças, como Astianax, poderiam crescer e imitar seus pais. O poeta Eurípides despertara o amante na imaginação da platéia; mas o amante e o poeta foram esquecidos na porta do teatro, e o lunático (na forma de maníaco homicida) controlava as ações políticas desses homens e mulheres que se acreditavam bons e virtuosos. É possível preservar o amante e o poeta sem conservar o lunático? Em cada um de nós, os três existem em graus variados. Estariam eles tão ligados que quando um fosse mantido sob controle os outros pereceriam? Não acredito nisso. Creio que em cada um de nós existe uma certa energia que deve encontrar expressão em ações não inspiradas pela razão, mas que pode exprimir-se na arte, no amor apaixonado, ou no ódio apaixonado, de acordo com as circunstâncias. A respeitabilidade, a regularidade e a rotina – as disciplinas de ferro fundido na sociedade industrial moderna – atrofiaram o impulso artístico e aprisionaram o amor de tal forma que ele não pode mais ser generoso, livre e criativo, mas sim sufocante e furtivo. O controle foi aplicado a questões que deveriam ser livres, enquanto a inveja, a crueldade e o ódio disseminaram-se amplamente com a bênção de quase todos os bispos. Nosso sistema instintivo consiste de duas partes – a que tende a impulsionar nossa vida e a de nossa descendência, e aquela propensa a se opor às vidas de nossos supostos rivais. A primeira inclui a alegria de viver, o amor, e a arte, que são, do ponto de vista psicológico, uma derivação do amor. A segunda inclui competição, patriotismo e guerra. A moralidade convencional faz tudo para suprimir a primeira e encorajar a segunda. A verdadeira moralidade procederia exatamente ao contrário. Nossas relações com aqueles que amamos podem ser entregues, com segurança, ao instinto; e nossa relação com aqueles que odiamos deve ser posta sob o domínio da razão. No mundo moderno, aqueles a quem efetivamente odiamos são grupos distantes, em especial nações estrangeiras. Nós os concebemos de forma abstrata e nos enganamos ao crer que os atos, que são na verdade encarnações do ódio, são praticados por amor à justiça ou por algum motivo nobre. Apenas uma grande dose de ceticismo pode rasgar os véus que escondem de nós essa verdade. Tendo alcançado isso, podemos começar a construir uma nova moralidade, que não esteja baseada na inveja e na restrição, mas no desejo de uma vida completa, e a perceber que outros seres humanos são uma ajuda e não um impedimento, depois que a loucura da inveja for curada. Isso não é uma esperança utópica; foi em parte realizada na Inglaterra elisabetana. Poderia ser alcançada amanhã, se os homens aprendessem a perseguir sua própria felicidade e não o infortúnio dos outros. Isso não é uma moralidade austera impossível; no entanto, sua adoção faria da terra um paraíso.” 

                                                     Ensaios Céticos - Bertrand Russell


 

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Letrinhas em movimento: como anda o sequenciamento do genoma do mexilhão dourado?

O mexilhão dourado está na Alemanha!

Não, não se assuste! Isso não significa dizer que ele invadiu águas europeias!

Ufa!

O que eu quis dizer é que o projeto do sequenciamento do genoma do mexilhão dourado começou uma colaboração com um instituto de pesquisa alemão, e por isso as letrinhas A, C, T, G do genoma do mexilhão dourado andam passeando pelo hard drive e pela memória ram de super computadores alemães...

Eu, Marcela, estou fazendo um ano de doutorado sanduíche, com bolsa da CAPES, em um instituto de pesquisa em Berlim chamado Leibniz Institute for Zoo and Wild Life Research (IZW), e continuo a montagem do genoma do mexilhão dourado dentro de um núcleo de bioinformática conhecido como Berlin Center for Genomics in Biodiversity Research (BeGenDiv). Essa sou eu por aqui: http://goo.gl/WAqdei 

O IZW e o BeGenDiv produzem ciência voltada para o estudo do comportamento e da genética animal, com fins de preservação da vida selvagem, e das espécies ameaçadas de extinção. E também, como no caso do mexilhão dourado, estudam a genética de espécies que ameaçam a diversidade e a vida selvagem!

Aqui na Alemanha eu sou orientada pela Dr. Camila Mazzoni, que está trazendo sua expertise em anotação de genes para o projeto do genoma do mexilhão dourado.

Mas o que significa anotação de genes?

O sequenciamento e a montagem de um genoma envolvem várias etapas. É preciso:

1-) Coletar o animal e extrair o seu DNA - já fizemos essa parte no Brasil!

2-) Depois, precisamos inserir esse DNA numa máquina de sequenciamento de letrinhas. Para que as letrinhas do genoma sejam geradas pela máquina, é preciso comprar reagentes químicos um tanto caros, e foi aqui que investimos uma parte do nosso dinheiro de financiamento, que inclui o nosso crowdfunding! Gastamos em torno de R$ 42.600,00 para gerar as sequências genéticas do mexilhão (as letrinhas!) em dois diferentes centros de sequenciamento: um deles na UNESP de Jaboticabal, e o outro na Itália na cidade de Perugia, no chamado Polo d'Innovazione di Genomica, Genetica e Biologia (Polo GGB)*. 

Letrinhas caras essas, né? Mas o que a gente faz com elas agora?

3-) É preciso montar o genoma. O genoma do mexilhão dourado é formado por mais ou menos 800 milhões de letrinhas A,C,T,G seguidas. Mas quando elas são geradas pela máquina de sequênciamento, essas letrinhas não saem de lá compriiiiiiiiidas já formando longos fragmentos até chegar aos 800 milhões necessários. Na verdade, as chamadas reads (ou sequências) que são geradas pelo sequenciador são bem curtas: cada read é composta de mais ou menos 100 letras A,C,T,G! Várias e várias dessas reads são geradas pelo sequenciador de genomas. Então você imagina: é preciso pegar todas as sequências de 100 letrinhas e dar sentido à elas, até que elas formem a ordem correta das 800 milhões que compõe o genoma completo do mexilhão! É como um quebra cabeça com muitas peças embaralhadas! E para resolver esse quebra cabeça é preciso usar diferentes programas computacionais. Trabalho puxado que estou desenvolvendo nesse momento!!!

Quando já tivermos as letrinhas na sequência correta formando o genoma então,

4-) Precisaremos anotar os genes dentro desse genoma! Nem todas as letrinhas codificam os blocos da vida que geram os nossos tecidos e órgãos: as letrinhas que fazem isso são chamadas genes, e é preciso identificá-las no meio das outras sequências que têm outros papéis na geração da vida. Muitas dessas outras sequências são como guardas de trânsito; controlando a expressão dos genes na célula.

Esse trabalho de diferenciação entre genes e guardas de trânsito já está sendo iniciado - a medida que vamos gerando os primeiros grandes blocos de letrinhas em sequência correta através da montagem do genoma - e vai continuar pelos próximos dois anos, até que o projeto esteja em sua fase final, no início de 2017.

São esses genes que serão nomeados a partir dos nosso queridos colaboradores! Quando a hora de nomear genes chegar, e ela há de chegar, todos os colaboradores receberão um e-mail e precisarão escolher o nome dos seus genes! Que sejam generosos e deem nomes legais! Porque já bastam os nomes reais dos genes que indicam as funções bioquímicas deles! Por exemplo: o gene da glucose-6-fosfato-desidrogenase... an?? Fala sério! Que nomão!! Tomara que no genoma do mexilhão dourado ela chame-se John glucose-6-fosfato-desidrogenase ou Mary glucose-6-fosfato-desidrogese... Melhor, hein?

Acho que por hoje vou ficando por aqui. Em Berlim: eu, meu computador, as letrinhas... e o mexilhão! 




Quem estiver interessado em uma ciência mais hardcore pode dar uma olhada no último capítulo de livro que escrevemos sobre a relação da genética com a capacidade invasiva do mexilhão dourado. O capítulo está dentro deste livro: http://www.springer.com/gp/book/9783319134932 


*Quem quiser mais detalhes sobre os pagamentos, recibos e coisa e tal, pode escrever pra mim: marcela.uliano@gmail.com

domingo, 25 de janeiro de 2015

"Quem sou eu? Eu sou uma pergunta."

Recebi muito input externo essas últimas semanas – leituras, vídeos, diálogos com amigos, e até a experiencia mais dura do confronto com a realidade e inevitabilidade da morte – que culminaram na minha vontade de escrever esse texto.

Fiquei pensando sobre as definições de tempo e sucesso da sociedade contemporânea. Já peço desculpas imediatas pelas próximas generalizações que faço - que são necessárias na hora de se escrever um texto falando sobre definições - e gostaria de deixar claro que valorizo e admiro a busca individual de cada um (para os que fazem essa busca) por suas próprias verdades, por suas próprias definições.

No geral, diariamente nossa rotina e tempo envolvem uma sucessão de longas horas de tarefas, compromissos e atividades. Nesse mundo lotado de informação, de celulares e aplicativos de produtividade, não temos tempo para expressar e viver nossas particularidades individuais: ir em busca das perguntas e respostas que mais nos intrigam, das atividades que mais gostamos. O mais preocupante não é nem a falta de tempo; é que não nos damos conta dela.

Essa loucura automática diária em que vivemos é supostamente a nossa forma de ir em busca do chamado sucesso. O sucesso, numa definição crua e mal analisada, atualmente muito atrelado ao eu: minha carreira, meu prestigio, minha casa, meu dinheiro e meus bens materiais.


Está tudo errado.

Não é somente a minha ou a sua impressão, mas os levantamentos quantitativos demonstram que as pessoas que se sentem mais realizadas não são necessariamente as que tem maior segurança material, que representa a nossa definição de sucesso. As pessoas realizadas são outras:



Essa TEDx talk em Victoria no final de 2014 do meu amigo David Lang, conta um pouco da sua história pessoal. Primeiro, de forma fantástica, David trás a noção do tempo a partir da perspectiva dos dias. Ele não conta a sua vida em anos, mas em dias vividos. E esse é um exercício que todos nós deveríamos fazer. A consciência e o apreciar de cada dia vivido pode nos ajudar a tirar nossos dias do automático: por mais que durante a semana tenhamos uma série de atividades para desenvolver, da mesma forma, todos os dias, precisamos estar conscientes de que este é um dia valioso, e temos que fazer neste dia o que realmente nos importa.

O que me importa? Como aprecio a vida diariamente?

São perguntas que precisamos nos fazer urgentemente.

Me deparar com a dolorosa realidade da inevitabilidade da morte, e da fragilidade da vida, a partir da perda de um amigo querido, colocou mais urgência ainda na minha busca por essas respostas.

Outra preciosa lição que sai da história de vida do David é a sua definição de sucesso. Lá para o final da sua talk ele afirmar “montei uma empresa, escrevi um livro, dei uma TED talk. Acho que estou realizado.”

E o que ele conclui a partir disso?

“Success is not personal”. - David Lang

Que quando a gente conquista individualmente as coisas que busca, elas não parecem mais tão especiais assim. É por isso que pessoas que atingiram a estabilidade financeira e material, quando acham que esse é todo o sentido da vida, acabam se tornando extremamente infelizes e insatisfeitas. Consquitou coisas, mas não satisfez o desconforto e a ânsia de realizar.

Diante da efemeridade e pequenez da vida individual de cada um de nós, você achava mesmo que ser apenas um ser produtor de resíduos; que tem uma casa linda, um iate e um pau de selfie, iria preencher os seus anseios mais profundos de realização pessoal? Porque estamos conscientes de que a nossa vida individual é pequena, curta e insignificante, faz sentido constatarmos que as pessoas mais felizes são aquelas que partilham: experiências, bens financeiros, conhecimentos. São aquelas pessoas que fazem algo além da sua borda: que transbordam. Que envolvem outros, que modificam e sensibilizam a vida de outros. E assim se eternizam.

“A dream you dream alone is only a dream.
A dream you dream together is reality.” – Yoko Ono

Que você tenha um bom dia.



quinta-feira, 24 de abril de 2014

Dois dedos e um pouco de gelo num pequeno trago filosófico


Até que ponto o homem está fadado a ser produto de sua época?


Essa é ou não é uma das perguntas mais relevantes da contemporaneidade? Via de regra, quando observo o comportamento das pessoas em um mundo onde a informação está cada dia mais acessível, noto que mesmo assim, a maior parte delas (ou de nós) se comporta de acordo com valores e preceitos apreendidos dos pais e familiares sem muito questionamento. Mas de onde tais regras e valores surgiram? Já parou pra pensar nisso?

Bertrand Russel, em História do Pensamento Ocidental (R$ 16,00 a versão Saraiva de Bolso) levanta a questão que abre esse texto quando conta a história de Boécio, “notável pensador, de quem vida e obra apresentam agudo contraste com a decadência geral da civilização da época”.

A tal época a qual Russel se refere é a Idade Média, período em que a filosofia estava confinada aos clérigos, onde o pensamento da Antiguidade, dos filósofos gregos, havia momentaneamente desaparecido do meio dos homens comuns.
Figura: obra filosófica de Boécio, pensador que viveu por volta do ano 500 d.c., em Roma. Embora fosse cristão, como a maioria das pessoas da época, seu cristianismo parecia não passar de nominal, uma vez que seu pensamento e obra sofreram mais influência dos pensadores gregos do que das especulações teológicas dos Padres.

A Boécio são conferidas as mais antigas traduções latinas dos escritos de Aristóteles. Sua principal obra filosófica chama-se Consolação da filosofia, que apresenta visões de deus e do pecado nem um pouco ortodoxas e muito livres da teologia cristã. Os pensamentos de Boécio em Consolação remontam muito a Sócrates e Platão. *

*A filosofia socrática é baseada toda no desinteresse pelos bens terrenos; o seu maior interesse é na busca da virtude. O importante precisamente é que devemos tentar a busca do conhecimento, e embora Sócrates sempre afirmasse que nada sabia, não achava que a busca do conhecimento estava fora do alcance dos homens. Sócrates sustentava que o que fazia um homem pecar era a falta de conhecimento. Se soubesse, não pecaria. A causa dominante do mau era, portanto, a ignorância. Assim, para se alcançar o bem é preciso ter conhecimento. Logo, o Bem é conhecimento. Os pensamentos de Boécio, escritos durante a Idade Média, seguem uma linha parecida.

Boécio sustentava tais convicções em uma era onde os tratados filosóficos da Antiguidade grega estavam quase perdidos e a superstição e misticismo religiosos dominavam as pessoas a tal ponto que só restava a pena de morte como herege para quem não partilhasse dos ideais cristãos. 

E num mundo cheio de dificuldades para o livre-pensar, Boécio recusou-se a ser um completo produto de sua época.

Resta a pergunta: e nós, somos Boécios? Ou alguma outra coisa?

Com essa questão, não estou querendo descredibilizar as convicções e os valores de cada um. Mas gostaria de chamar para a reflexão. Por exemplo: você já parou pra pensar de onde vem a sua noção de o que represente uma família? E as suas condutas de vida: casar ou não, ter filhos ou não, um trabalho estável ou sair pelo mundo viajando. Já pensou sobre elas? De onde a organização social na qual vivemos surgiu? E mais, será esta a única forma de organização social possível? O que você quer é realmente o seu desejo? O que você acredita foi o que você tomou como verdade pra si depois de observar várias verdades diferentes? Ou é apenas o que a maioria têm como verdade?


Indago isso porque as vezes considero que, mesmo num mundo cheio de informação e liberdade, as pessoas ainda são cheias de superstições e preconceitos (como ser humano que aprende, também não me excluo dessa história). Na verdade, de repente é o excesso de informação o problemático: tem tanta coisa pra se ler e aprender que ninguém mais sabe por onde começar!


Mas por algum lugar devemos iniciar essa jornada! A disponibilidade de informação livre e acessível (na internet, por exemplo) é uma riqueza sem precedentes. E estar vivo nesse momento também é! Sócrates dizia que uma vida não analisada não valia a pena ser vivida. Tendo a concordar 100% com ele nessa afirmação. E como escreveu minha melhor amiga há algum tempo "a superfície (de todas as coisas) é um tédio. O valor de cada informação se multiplica progressivamente quando você se aprofunda nelas. Eu acredito nisso. As coisas obviamente são mais gostosas quando é você mesmo quem mastiga".

Acho que vale a pena você dar ouvidos àquela pulga que está atrás da sua orelha, nem que seja pra se maravilhar e dar risadas por alguns minutos com realidades nunca antes imaginadas e investigadas.

sábado, 2 de novembro de 2013

A cola do mexilhão colou meu estômago?

Mesmo depois do sucesso do Crowdfunding do mexilhão dourado, e com o trabalho em andamento no laboratório, continuo recebendo e-mails com perguntas e dúvidas a respeito da invasão de L. fortunei (esse é o mexilhão dourado!) na América do Sul. Nas últimas semanas recebi dois e-mais interessantes, que resolvi compartilhar aqui no blog, porque podem ser dúvidas que outras pessoas também tenham. Peço desculpas aos autores das questões pela demora, mas em virtude de alguns deadlines e principalmente por motivo de saúde, só consegui sentar no computador e parar pra responder nesse momento.

As primeiras questões: Minha maior duvida é, se ele veio da China, como lidaram com o problema por lá? (imagino que comeram todos, como fazem com tudo por lá). Por que o mexilhão dourado não é comestível?

Pois bem! A resposta para a primeira das perguntas é a seguinte: a grande questão é que na China ele não é um invasor! Lá ele é uma espécie nativa. As águas doces asiáticas são diferentes das sul-americanas, lá ele possui predadores naturais, e está em equilíbrio com o ecossistema. Por isso, na Ásia o mexilhão dourado não se reproduz exacerbadamente como ele faz aqui na América do Sul. 

Algumas vezes, quando esse ambiente natural muda, algumas espécies, mesmo nativas, podem sim predominar em detrimento de outras mesmo no seu local natural. Mas não é o caso para o mexilhão dourado na Ásia nesse momento.

E será que os chineses comeram todos os mexilhões dourados? Tenho que concordar com você que eles comem tudo por lá mesmo! Mas acredite: nem os chineses comem ele! Uau! E por que? Simplesmente porque ele tem um gosto muito ruim! Simples assim! Em algumas plantas já são bem conhecidas algumas estratégias contra a predação por insetos herbívoros, como a produção de tanino e fenol ou o aumento da quantidade de espinhos. Fica a questão: será que o ‘mau gosto’, a falta de sabor do mexilhão dourado é uma adaptação anti-predação e que, garante ainda mais o seu sucesso como invasor? Questão boa para se investigar!

A questão do segundo e-mail (não era bem uma questão, era mais um pedido INDIGNADO de resposta!): Sei o quanto você deve ser ocupada, mas não se esqueça de mim! Por favor!!! Aguardo ansiosamente pelas respostas que fiz há uns 3 e-mails atrás, sobre a substância que o mexilhão usa para se grudar nas superfícies! 

Leitor, desculpe a demora em responder você! Aqui está sua resposta: a substância que o mexilhão usar para se fixar chama-se bisso, e é secretada pela glândula do pé. Sim! Os mexilhões tem pé sim! Dê uma olhada no bisso secretado pelo mexilhão marinho Perna perna na figura abaixo.

                                                  Mexilhão P. perna fixo em substrato através do bisso. 
                                                                     Foto por Milla Zinkova


Essa estrutura, que é parecida com um cabelo muito resistente, é formada por um conjunto de cerca de 30 proteínas (que, quando sequenciadas, serão batizadas com o nome dos nossos colaboradores do Catarse!). Estudos mostram que o bisso pode ser até 30 vezes mais resistentes que os tendões humanos! E alguns pesquisadores já investigam a formação de suas placas adesivas na intenção de desenvolver uma cola para materiais molhados. Demais, né? Lembrando que esses estudos estão sendo feitos com bissos secretados por outros mexilhões, pois essa é uma característica comum a essa família, e não é exclusividade do mexilhão dourado.

Lembrando que apesar da falta de tempo, me sinto muito feliz em receber e-mails com dúvidas e questões interessantes, e pretendo responde-los sempre que possível. No mais, volto agora para o descanso seguido da missão de cumprir meus deadlines. Ontem fui a um médico que me diagnosticou com ‘gastrite nervosa’. Embora seja um diagnóstico duvidoso, ele pode ter seu sentido. Fui, como sempre, dar uma investigada na ‘doença’ e encontrei um dado interessante: a gastrite nervosa acomete preferencialmente mulheres jovens. 

Hum... Pausa para reflexão.

Não sei exatamente qual estatística o tal site usou para chegar a essa conclusão, mas deve ter sido a prevalência de casos em mulheres jovens em um determinado consultório médico, ou em vários. Fiquei pensando que de repente faz sentido, por dois motivos: primeiro porque nós mulheres somos umas histéricas-sentimentais-ansiosas! Não fiquem brabas comigo meninas, mas não tem jeito: nosso gênero ganha no quesito drama e na necessidade de prever todo o futuro em apenas dez minutos! Mas nesse momento, não achava que esse era o meu caso. Achava que estava mais para o segundo motivo: essa vida louca, maravilhosa, cheia de liberdade mas também cheia de responsabilidades que vivemos hoje no século XXI! Mas disso os homens jovens, apaixonados e comprometidos com seu futuro (e com o futuro do mundo) também sofrem! De qualquer forma, pra mim alguma lição ficou: não adianta adorar o trabalho mas comer miojo pra compensar as horas gastas ruminando na internet. É preciso aumentar o volume da eficiência, diminuir o da cobrança, aumentar a quantidade de horas a contemplar o teto e levar a vida leve. 

Referências:
- Aoyama & Labinas, 2012: Características estruturais das plantas contra a herbivoria por insetos.  http://www.conhecer.org.br/enciclop/2012b/ciencias%20agrarias/caracteristicas%20estruturais.pdf

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Sobre beagles e imperfeição científica

Já li vários textos muito bons sobre a polêmica do rapto dos cachorros beagles do Instituto Royal, e eu podia só vir aqui e colar vários links para esses textos. Mas resolvi acrescentar apenas uma questão que parece que as pessoas não entendem. ANTES DE VOCÊ PENSAR QUE É CRUEL FAZER TESTES EM BEAGLES EU TE DIGO: O CIENTISTA QUE FAZ JÁ PENSOU NISSO.

Primeiro gostaria de afirmar o quanto acho válida e sinto orgulho dessa discussão toda: o mundo já passou por épocas tão obscuras, onde os seres humanos eram diferenciados uns dos outros por serem negros ou brancos, ciganos, católicos ou judeus. Isso levou a genocídios muito bem conhecidos por nós, como durante a escravidão na colonização das Américas e o holocausto. Mas isso mudou: junto com questões político-sociais, também a ciência, ao final do século XX e início do século XXI provou, a partir do sequenciamento e montagem do genoma humano, que somos todos iguais! Que não há diferença alguma na nossa essência. Pois bem. A partir de toda essa revolução para a dignidade humana terminamos aqui hoje: discutindo a vida de beagles. Eles são cachorros. Isso não é demais? Estamos nos aperfeiçoando como seres humanos. Estamos indo em direção ao mundo mais ideal... Fico muito feliz!

A partir disso, infelizmente, tenho uma má notícia: não temos atualmente maneira alguma de substituirmos 100% das experimentações animais. Não temos. Pode acreditar em mim. Eu não sou jornalista. Sou cientista. Bióloga. Trabalho na área.

Isso, é claro, não significa que tenhamos que ficar de braços cruzados. Mas posso te garantir algumas coisas: quando tu sentires dor ao ver um Beagle sofrer, UM CIENTISTA ANTES DE TI JÁ SENTIU PIOR. Quando pensares que podemos testar in vitro, inventar um jeito novo de fazer, UM CIENTISTA JÁ PENSOU ANTES DE TI EM TUDO ISSO, E ELE JÁ ESTÁ TESTANTO! Quando pensares que a questão é dinheiro, que usar protótipos é caro demais, eu te garanto: BIOTÉRIOS ANIMAIS CUSTAM MUITO DINHEIRO, E OS PROTÓTIPOS NÃO SUBSTITUEM EXPERIMENTAÇÃO ANIMAL. Infelizmente.

Infelizmente. É o que pensam todos os cientistas que eu conheço que trabalham com animais quando pensam sobre o assunto. Todos.

Eu, por exemplo, estou escrevendo esse texto porque eu me importo. Precisava me posicionar.

Entendam uma coisa: os cientistas são seres humanos, não estou dizendo que a ciência não pode ser usada para a maldade. Estão aí os exemplos de ciência nazista que não nos deixam enganar. Mas posso garantir outra coisa: a ESMAGADORA maioria da ciência feita no mundo até hoje já salvou MUITO mais vidas do que as guerras tiraram, ou do que as mortes de animais que ocorrem hoje em dia. Para dar dois exemplos devastadores: vacinas e antibióticos. Pronto. A varíola não existe mais no mundo, ninguém morre de uma infecção bacteriana qualquer.

Mas não digo, e nunca direi, para deixarmos de buscar o mundo ideal. Primeiro: vamos todos virar vegetarianos (todo mundo que está xingando os cientistas já é, certo? Se não, há uma séria disparidade de ideias aí). Estou falando sério. Ou pelo menos, vamos parar de jogar fora aquele pedaço de carne duro que ficou no prato, vamos parar de consumir carne todos os dias... Há vários problemas na indústria de carnes e laticínios, e o pior deles é sustentado pela nossa vontade de não comer aquela carnezinha ‘ruim’ (ao mesmo tempo que milhares de pessoas morrem de fome, e toneladas de carne são jogadas fora todos os dias).

Mas pra finalizar e dar minha contribuição, dou uma dica para os não-cientistas. Se quiserem protestar com razão perante os cientistas, pressionem para que eles parem de fazer tanta pesquisa repetitiva. Porque isso de fato acontece: testes da mesma droga em modelos muito parecidos, concentrações que nunca vão ser usadas e etc. Ou mesmo, para que aulas de fisiologia sejam gravadas, e os vídeos transmitidos. 

Estou com vocês nessa. A ciência, assim como qualquer outro tópico desenvolvido através do homem, tem suas falhas. E precisamos ir atrás delas para corrigi-las. Precisamos de reformas (assim como nossos sistemas políticos e sociais). Mas isso já é história para um outro post, um outro dia...





domingo, 12 de agosto de 2012

Curiosity, a fome no mundo e o voto.


Na última segunda feira (6 de agosto de 2012) pousou em segurança em Marte o incrível robô Curiosity. Sua viagem de 563 milhões de quilômetros ao Planeta Vermelho se iniciou em 26 de Novembro de 2011, as 10 horas da manhã. E foi bem sucedida! Sua missão agora é ajudar os cientistas da NASA (e do mundo inteiro) a elucidar algumas dúvidas: como é o clima de Marte e sua geologia? Será que este planeta poderia suportar a vida como a conhecemos? O robô inclusive já enviou uma foto para nós terráqueos nos maravilharmos! Incrível, não?

Bom, para algumas pessoas parece que não. Durante essa mesma semana, expostas numa das maiores redes sociais do mundo, o Facebook, vi mensagens de pessoas questionando se o dinheiro empregado na missão Curiosity não teria sido melhor investido em combater a fome no mundo.



Posso dizer que entendo a linha de raciocínio das pessoas: num mundo tão cheio de injustiças, será que deveríamos mesmo voltar nossos olhos para um planeta a milhões de quilômetros de distância daqui? 

Minha resposta para essa questão é outra pergunta: será que o problema das injustiças do mundo está relacionado ao dinheiro gasto nas missões espaciais?

O fato é que enfrentamos realmente problemas de má gestão dos recursos gerados no planeta e há muitas más escolha de onde investir esses recursos! Mas uma coisa é certa; investimento em ciência, educação e tecnologia NÃO SÃO três dessas más escolhas!

Um outro fato que devemos sempre ter em mente é que os maiores problemas do planeta (Terra) são atualmente facilmente resolvíveis. Isso mesmo! Esqueça essa história de que a fome no mundo é culpa da falta de comida para todos. HÁ comida para alimentar todas as bocas, o problema é a distribuição! O problema é que o interesse maior é por vender a produção de alimentos, e não por alimentar! Por isso, esqueça essa história de que os cientistas precisam criar grãos que cresçam mais rápido para que todos possam comer! Bullshit!

A superpopulação. O que será que temos que fazer? Uma castração catastrófica nazista é a única solução? NÃO! Camisinha e educação sexual são as soluções! E adivinha só? Isso é barato de se fazer! Não precisamos de super fármacos dos super laboratórios! Precisamos de uma política de educação descente!

Mais uma vez, vou insistir com você leitor, que o melhor que podemos fazer é votar direito. Pode demorar um pouco, mas se insistirmos em votar nos políticos que mostram uma boa conduta, quem sabe com o tempo conseguiremos pensar em Brasília como sendo muito mais do que o local onde gastam nosso suado dinheiro em farras. 

Você já assistiu a esse vídeo? E conhece o ranking dos políticos (http://politicos.org.br/) ?




Dê uma checada lá antes das eleições este ano! Este site faz a pesquisa sobre a seriedade e o trabalho dos políticos por você. E os ranqueia do sentido do 'melhor' para o 'pior'. Dessa forma, se você encontrar políticos com pontuação baixa ou não-ranqueados, o conselho forte é para que você NÃO vote neles!

Finalmente, gostaria de terminar argumentando (em três linhas) em defesa da ciência. Não é maravilhoso que nós, esse bichinhos mamíferos do cérebro grande tenhamos conseguido fazer viajar e pousar um lindo robô em outro planeta? Pense nisso! E o que são os edifícios onde moramos, e a luz elétrica, o rádio e a internet! 

As crianças de barriga vazia ainda te incomodam? Bom, a mim também! Então vamos estudar, votar pra mudar, e quem sabe outro dia quando estivermos todos de barriga cheia, eu tente argumentar novamente em favor da curiosa Cursiosity!

".. You may say, I'm a dreamer. But I'm not only one. I hope some day you'll join us. And the world will be as one..."



sexta-feira, 18 de maio de 2012

Frustração


Por razões com as quais não concordo, porém respeito, o texto "A incerteza e a ciência do século XXI" foi tirado do ar e permanecerá assim por algumas semanas (já voltou!!!). Peço desculpas a você amigo próximo, a quem recomendei esse blog, e também para você amigo não tão próximo, navegador da web que chegou até ele a partir de outras fontes, por precisar fazer isso.

Porém, na tentativa de não desapontá-lo tanto assim, publico hoje aqui um texto que escrevi há alguns meses, e que já foi publicado no blog comunitário do Laboratório de Biologia Molecular Ambiental (BioMA), do Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, local onde desenvolvo meu projeto de mestrado. Se você quiser dar uma checada lá de vez em quando posso quase garantir que não vai se arrepender.

Fique agora com o texto sobre vegetarianismo e boa leitura!



COMER OU NÃO COMER CARNE?

A visão de um biólogo sobre uma das várias facetas do vegetarianismo.   

Nos últimos tempos tenho pensado muito sobre vegetarianismo. Uma de minhas melhores amigas, com quem, via de regra, tenho vários brainstorms construtivos, parou de comer carne. Quando nossas vidas nos permitem, sempre discutimos uma coisa ou outra sobre o assunto.





O último material analisado foi uma palestra de Gary Yourofsky, um estadunidense ativista pelos direitos dos animais (disponível no YouTube; http://www.youtube.com/watch?v=8bH-doHSY_o).  Em uma hora e dez minutos de palestra, Yourofsky discursa sobre os vários aspectos que o levam a acreditar fielmente que comer carne é um crime; primeiro contra os outros animais, e segundo, contra nós mesmos, uma vez que, na opinião do palestrante, comer carne e seus derivados (queijo, leite e ovos) faz mal para a saúde humana.

Dos vários pontos levantados por Yourofsky, não podia ter deixado de me incomodar e chamar minha atenção, como bióloga que sou, a declaração de que os seres humanos são animais 100% herbívoros. De acordo com Yourofsky, o comprimento de nossos intestinos é cerca de 7 a 13 vezes o comprimento de nosso tronco, o mesmo padrão de comprimento que é encontrado em outros herbívoros. Temos longos intestinos. Por outro lado, o intestino dos “carnívoros verdadeiros” como hienas, tigres e leões, seria apenas de 3 a 6 vezes o tamanho de seus troncos. Isso seria uma evidência forte de que não nascemos para comer carne.

Mas será que tal evidência sustenta tal afirmação?

Com esta questão rondando meus pensamentos por alguns dias, resolvi ir atrás de trabalhos científicos que abordassem o assunto; procurava eu por artigos que tratassem da evolução do homem e sua relação, ou não, com o hábito de comer carne. Eis que encontro um trabalho de 2003, publicado no The Journal of Nutrition tratando de tal tema. A autora, Katherine Milton discursa sobre as diferenças do tamanho dos intestinos de humanos e dos grandes símios (em inglês, great apes, os orangotangos, gorilas e chimpanzés), que são os parentes vivos mais próximos do homem moderno atual e tem uma dieta marcadamente herbívora. De acordo com ela, em humanos, mais da metade (56%) do volume total do intestino é constituída pelo chamado pequeno intestino enquanto que nos símios a parte maior seria o cólon (45%). Estas diferenças evidenciariam especializações distintas no que diz respeito à dieta: uma maior dominância de cólon, como presente nos símios, reflete uma dieta de baixa qualidade nutricional, constituída basicamente por plantas. Por outro lado, animais com um organismo dominado pelo pequeno intestino, como os seres humanos, que é o principal local de digestão e absorção de alimentos, sugere uma adaptação a alimentos de alta qualidade nutricional, como carnes.

Dá pra ficar com a pulga atrás da orelha, certo? Mas não vamos tomar nenhuma decisão precipitada, voltemos ao vídeo.

Logo depois de comentar sobre o intestino dos humanos, Yourofsky sugere um desafio: segundo ele, se somos realmente carnívoros, deveríamos ser capazes de caçar (isso mesmo, caçar) um esquilo pelas ruas, matá-lo e comê-lo com nossas próprias mãos, sem o uso de nenhuma ferramenta adicional. Depois dessa afirmação fiquei ainda mais desconfortável com o vídeo e pensei: ora, mas se temos um cérebro desse tamanho não deveríamos usá-lo para alguma coisa? Não poderia nossa inteligência substituir a destreza de garras e dentes imensos pela habilidade de construir ferramentas e armas para a caça? Qual foi minha felicidade quando, com o artigo de Katherine Milton, foi exatamente uma explicação similar a esta o que encontrei: segundo Milton, a primeira ferramenta de pedra em associação com um hominídeo é encontrada com os restos fossilizados do Homo habilis, um dos primeiros pertencentes às espécies do gênero Homo. Esta associação indica que, pelo menos a partir de então, a tecnologia da ferramenta de pedra começa a desempenhar um importante papel na vida desses hominídeos facilitando a alimentação por carne. Esta mudança de enfoque na dieta, empurrada fortemente pelo aprendizado do uso da tecnologia, foi gradualmente refletindo-se no tamanho do cérebro humano (gerando um aumento substancial) e no formato do intestino (aumentando a proporção do pequeno intestino). Sem o rotineiro acesso a carne e seus derivados, é improvável que os hominídeos em evolução chegassem a atingir um tamanho de cérebro tão notoriamente grande e complexo enquanto ao mesmo tempo evoluíam como grandes e ativos primatas sociais.

E agora? Fica a pergunta: será que todas as pesquisas científicas (que são muitas) relacionando o hábito de comer carne à evolução do homem estão enganadas? Sim, essa pode ser sim uma resposta. Mas pensemos por um outro lado: será que nossa vontade de parar o abuso aos animais nas fazendas de criação e abatedouros não está nos levando a tirar conclusões que são biologicamente equivocadas para que consigamos ganhar mais partidários para nossa causa?

Particularmente, também concordo que o modo de produção de carne atual talvez seja reflexo de uma sociedade doente, onde compra e venda são mais importantes e passam por cima dos direitos e do bem-estar animal. Mas será que comer carne não faz realmente parte dos hábitos do bicho homem? Evidências evolutivas mostram que faz parte. Por favor, não confundamos alhos com bugalhos (ou comedores de carnes, com assassinos cruéis).

Referência:
Katharine Milton. 2006. The Critical Role Played by Animal Source Foods in Human (Homo) Evolution. The Journal of Nutrition. vol133, no 11 (38865 –  38925).