Por razões com as quais não concordo, porém respeito,
o texto "A incerteza e a ciência do século XXI" foi tirado do ar e
permanecerá assim por algumas semanas (já voltou!!!). Peço desculpas a
você amigo próximo, a quem recomendei esse blog, e também para você amigo não
tão próximo, navegador da web que chegou até ele a partir de outras fontes, por
precisar fazer isso.
Porém, na tentativa de não desapontá-lo tanto assim,
publico hoje aqui um texto que escrevi há alguns meses, e que já foi publicado
no blog comunitário do Laboratório de Biologia Molecular
Ambiental (BioMA), do Instituto de Biofísica da Universidade Federal
do Rio de Janeiro, local onde desenvolvo meu projeto de mestrado. Se você
quiser dar uma checada lá de vez em quando posso quase garantir que não vai se
arrepender.
Fique agora com o texto sobre vegetarianismo e boa
leitura!
COMER OU NÃO COMER CARNE?
A visão de um biólogo sobre uma das várias facetas do
vegetarianismo.
Nos últimos tempos tenho pensado muito
sobre vegetarianismo. Uma de minhas melhores amigas, com quem, via de regra,
tenho vários brainstorms construtivos,
parou de comer carne. Quando nossas vidas nos permitem, sempre discutimos
uma coisa ou outra sobre o assunto.
O último material analisado foi uma
palestra de Gary Yourofsky, um estadunidense ativista pelos direitos dos
animais (disponível no YouTube; http://www.youtube.com/watch?v=8bH-doHSY_o). Em uma hora e dez minutos de palestra,
Yourofsky discursa sobre os vários aspectos que o levam a acreditar fielmente
que comer carne é um crime; primeiro contra os outros animais, e segundo,
contra nós mesmos, uma vez que, na opinião do palestrante, comer carne e seus
derivados (queijo, leite e ovos) faz mal para a saúde humana.
Dos vários pontos levantados por
Yourofsky, não podia ter deixado de me incomodar e chamar minha atenção, como
bióloga que sou, a declaração de que os seres humanos são animais 100%
herbívoros. De acordo com Yourofsky, o comprimento de nossos intestinos é cerca
de 7 a 13 vezes o comprimento de nosso tronco, o mesmo padrão de comprimento
que é encontrado em outros herbívoros. Temos longos intestinos. Por outro lado,
o intestino dos “carnívoros verdadeiros” como hienas, tigres e leões, seria
apenas de 3 a 6 vezes o tamanho de seus troncos. Isso seria uma evidência forte
de que não nascemos para comer carne.
Mas será que tal evidência sustenta tal
afirmação?
Com esta questão rondando meus
pensamentos por alguns dias, resolvi ir atrás de trabalhos científicos que
abordassem o assunto; procurava eu por artigos que tratassem da evolução do
homem e sua relação, ou não, com o hábito de comer carne. Eis que encontro um
trabalho de 2003, publicado no The
Journal of Nutrition tratando de tal tema. A autora, Katherine
Milton discursa sobre as diferenças do tamanho dos intestinos de humanos e dos
grandes símios (em inglês, great
apes, os orangotangos, gorilas e chimpanzés), que são os parentes
vivos mais próximos do homem moderno atual e tem uma dieta marcadamente
herbívora. De acordo com ela, em humanos, mais da metade (56%) do volume total
do intestino é constituída pelo chamado pequeno
intestino enquanto que nos símios a parte maior seria o cólon
(45%). Estas diferenças evidenciariam especializações distintas no que diz
respeito à dieta: uma maior dominância de cólon, como presente nos símios,
reflete uma dieta de baixa qualidade nutricional, constituída basicamente por
plantas. Por outro lado, animais com um organismo dominado pelo pequeno intestino, como os
seres humanos, que é o principal local de digestão e absorção de alimentos,
sugere uma adaptação a alimentos de alta qualidade nutricional, como carnes.
Dá pra ficar com a pulga atrás da orelha,
certo? Mas não vamos tomar nenhuma decisão precipitada, voltemos ao vídeo.
Logo depois de comentar sobre o intestino
dos humanos, Yourofsky sugere um desafio: segundo ele, se somos realmente
carnívoros, deveríamos ser capazes de caçar (isso mesmo, caçar) um esquilo
pelas ruas, matá-lo e comê-lo com nossas próprias mãos, sem o uso de nenhuma
ferramenta adicional. Depois dessa afirmação fiquei ainda mais desconfortável
com o vídeo e pensei: ora, mas se temos um cérebro desse tamanho não deveríamos
usá-lo para alguma coisa? Não poderia nossa inteligência substituir a destreza
de garras e dentes imensos pela habilidade de construir ferramentas e armas
para a caça? Qual foi minha felicidade quando, com o artigo de Katherine Milton,
foi exatamente uma explicação similar a esta o que encontrei: segundo Milton, a primeira ferramenta de pedra em
associação com um hominídeo é encontrada com os restos fossilizados do Homo habilis, um dos
primeiros pertencentes às espécies do gênero Homo. Esta associação indica que, pelo menos a
partir de então, a tecnologia da ferramenta de pedra começa a desempenhar um
importante papel na vida desses hominídeos facilitando a alimentação por carne.
Esta mudança de enfoque na dieta, empurrada fortemente pelo aprendizado do uso
da tecnologia, foi gradualmente refletindo-se no tamanho do cérebro humano
(gerando um aumento substancial) e no formato do intestino (aumentando a
proporção do pequeno
intestino). Sem o rotineiro acesso a carne e seus derivados, é
improvável que os hominídeos em evolução chegassem a atingir um tamanho de
cérebro tão notoriamente grande e complexo enquanto ao mesmo tempo evoluíam
como grandes e ativos primatas sociais.
E agora? Fica a pergunta: será que todas as pesquisas
científicas (que são muitas) relacionando o hábito de comer carne à evolução do
homem estão enganadas? Sim, essa pode ser sim uma resposta. Mas pensemos por um
outro lado: será que nossa vontade de parar o abuso aos animais nas fazendas de
criação e abatedouros não está nos levando a tirar conclusões que são
biologicamente equivocadas para que consigamos ganhar mais partidários para
nossa causa?
Particularmente, também concordo que o modo de
produção de carne atual talvez seja reflexo de uma sociedade doente, onde
compra e venda são mais importantes e passam por cima dos direitos e do
bem-estar animal. Mas será que comer carne não faz realmente parte dos hábitos
do bicho homem? Evidências evolutivas mostram que faz parte. Por favor, não
confundamos alhos com bugalhos (ou comedores de carnes, com assassinos cruéis).
Referência:
Katharine
Milton. 2006. The Critical Role Played by Animal Source Foods in Human (Homo)
Evolution. The Journal of
Nutrition. vol133, no 11 (38865 – 38925).